24 de agosto de 2009

Refém do tempo


O tempo era curto, muito curto para ele. As horas se passavam tão rápido que parecia que fugiam propositalmente dos interesses daquele homem, como baratas que se escondem ao ligar das luzes. Era como se o tempo simplesmente tivesse sido criado para afastar o homem de tudo aquilo que ele mais desejava, pois era assim que ele se sentia naquele momento de sua vida. O tempo para aquele homem era o maior inimigo de todos os anseios que ele poderia vir a possuír, e nada podia fazer contra essa poderosa força, que parecia ganhar personalidade dentro da mente daquele homem, uma personalidade cruel e vaidosa. E dessa forma, o homem se via fraco diante do tempo, e o que sobrava para ele era simplesmente odiar aquilo tudo, odiar e sucumbir diante dos desejos de criatura tão vil.

Engraçado como o tempo brincava com aquele homem, que por muitos anos simplesmente vivia perdido, sem destino, sem nada que o guiasse em uma direção ou objetivo maior, sem algo que indicasse o caminho para a sua felicidade. E ele, simplesmente sofria as dores de uma vida vazia, solitária e fria. E justamente nessa época, o tempo fazia com que sua dor fosse maior, cada dia maior, a maior de todas as dores do mundo, e essa se arrastava por toda sua alma, levando aquele homem ao desespero completo. Graças a vontade impetuosa desse tempo, ess dor durava o tempo mais longo que podia existir no mundo, e assim, ele vivia. E esse tempo, esse longo tempo, fazia com que essa dor penetrasse em todos os cantos existentes daquele homem, dilacerando-o como uma fera faz com suas presas abatida. Sim, aquele foi o tempo em que o ar era estagnado, a maré estava morta, a lua não brilhava e o sol não mais oferecia o calor que tanto nos afaga. A vida simplesmente deixava de fluir e a esperança era algo distante na memória daquele homem. O tempo simplesmente parou naquela época, de tal forma que ele não conseguia andar por ele, não podia ir ao passado para resgatar as memórias e lembranças que tanto lhe eram caras, nem tão pouco ir para o futuro, onde a esperança residia. Não existiam os anos, nem meses, semanas, dias, e muito menos as horas e minutos. O tempo, simplesmente não andava. Permanecia parado, e assim, fazia com que a dor daquele homem se tornasse eterna.

Mas logo a vida veio lhe ensinar que nada pode ser eterno, a não ser o tempo, essa força misteriosa que, sem que aquele homem pudesse explicar, agia contra a sua vontade e felicidade. Sim, ele teve essa certeza quando conseguiu mudar sua vida, pois com muita luta, ele o fez. O homem lutou, e venceu. Suas dores, superou. Sua vida, fez andar, e assim, voltou a caminhar no tempo. Já havia esperança naquela vida, naqueles novos dias, e um objetivo bem traçado para que a felicidade fosse alcançada. Mas o tempo, como já foi dito anteriormente, para aquele homem era curto, muito curto. Os dias então se passavam com o piscar de um olho, e a vida passou a se esvair a cada respiração dada por ele. Não entendia o porque disso tudo, mas só podia perceber que tudo corria contra ele. Agora que ele precisava de tempo para viver sua nova vida, o próprio se privava de dar ao homem aquilo que ele tanto precisava. E assim, o homem odiava. E viva para odiar o tempo.

E por algum tempo, ele odiou, pois o tempo parecia odiar-lo também, pois tirava tudo o que ele tentava conquistar, esvaindo todas as coisas que ele tanto desejava diante sua misteriosa mas muito poderosa força, que fazia com que todos os homens se tornassem iguais diante dela. E então, o homem veio descobrir que o tempo poderia agir a favor dele, e esse mesmo tempo fez ele aprender sobre o tempo, e sobre si mesmo. Depois de tanto lutanr, ele decidiu aceitar, e com isso, passou a entender. E por mais que o tempo tivesse passado, e as horas em que ele se encontrasse fosse demasiadamente tarde, o homem percebeu que o tempo era apenas algo que estava dentro dele, dentro de sua mente. E a partir desse momento, ele passou a caminhar lado a lado com o tempo, e assim, o homem, aprendeu a viver. Podia ser tarde o tempo em que ele chegou a esse ponto, mas agora isso era irrelevante, pois o tempo não era mais seu inimigo, e sim um companheiro de viajem, e os momentos que se sucederam até o fim de seu tempo, foram simplesmente completos.

13 de agosto de 2009

O homem que pereceu


E então, aquele dia, que deveria ser um dia qualquer, simplesmente não o foi. Nesse dia, algo aconteceu, sem que ele percebesse. Talvez esse algo viesse acontecendo gradativamente, todos os dias nos últimos de sua vida, mas ele nunca conseguira perceber, fazendo com que esse fato, para ele, nunca tivesse existido. E isso, agora, era irrelevante. O que possuía importância para aquele homem era o fato de que aquele dia que se iniciava não era um dia qualquer. Não. Era um dia que mudaria todo o resto da sua vida, selaria o seu destino. Naquele dia, sem saber porque, ele acordara sozinho.

Não conseguiria perceber esse fato no exato momento de seu despertar, pois esse momento inicial de seu dia sempre foi solitário. Acordar, levantar e sem muito pensar, seguir os passos marcados da rotina de sua vida. E assim, sem nenhuma regra estabelecida para determinar o exato momento em que ocorre, começara a pensar. As vezes ao comer, as vezes ao se banhar, as vezes ao olhar para a janela do cheio ônibus que o guiava em direção a rotina necessária para a sua sobrevivência. E assim se seguiam os dias. Mas não aquele dia. Era um dia diferente, pois algo aconteceu, e aquele homem estava prestes a descobrir. Depois de pronto, saiu de seu apartamento, o mesmo apartamento de todos os dias, tão comum e repetitivo. E assim, entrou em seu elevador igualmente repetitivo e rotineiro. Esperou, sem se preocupar com qualquer noção de tempo, pois esse também seguia as regras da rotina bem estruturada em sua vida. Essa rotina era o elemento principal que dava base a sua vida. Ela era a responsável pela a sua sobrevivência no mundo em que era obrigado a viver, e ao mesmo tempo, o anulava diante de si mesmo. Mas isso era irrelevante para ele naquele momento, assim como sempre o foi em sua vida inteira.

Foi no momento em que pisou fora de seu prédio e resolveu olhar para o mundo fora de si que percebeu que aquele era um dia diferente. No lugar onde esperava ver pessoas, movimentação, acontecimentos, enfim, aonde a vida deveria estar acontecendo, simplesmente o homem não encontrou nada. Sim, não havia nada em sua volta, apenas a fria e vazia paisagem da cidade em que vivia. Ele estava ali, naquele cenário triste, sozinho, sem ninguém, nenhuma vida, nenhum sentindo. Olhou para os lados, e nada existia. Então saiu correndo, desesperado, procurando uma alma que o salvasse daquela solidão, e não obteve sucesso. Ruas vazias, carros abandonados, prédios sem luz, nem nada. Não havia vento, a luz que iluminava o seu caminho era vazia, e ele não sabia o que fazer naquela situação. Tentou procurar, em sua memória, os pontos em que ele poderia encontrar algum apoio, locais distanciados por sua vida repetitiva e óbvia, locais que no passado, eram a razão de seu viver. E, simplesmente, ao investigar sua mente, ela se encontrava em processo de esvaziamento. Tentou pensar em pessoas que poderiam lhe dar uma palavra de apoio, uma saída para aquela situação bizarra que se encontrara, mas nada vinha em sua mente. Sim, ele estava, em processo acelerado, se isolando de todas as coisas existentes.

Naquele momento, não existia mais nada o que fazer, e o homem se sentou em qualquer lugar, pois esse seria, como muitas coisas em sua vida, irrelevante. E resolveu olhar sua vida, em perspectiva. Resolveu fazer algo que a muito tempo não era feito: olhar para sua própria vida e tentar entender as coisas que aconteciam. E viu, que em um certo dia, ele resolveu não mais olhar, e com isso, aos poucos, foi se fechando para o mundo. Lentamente, as coisas em sua volta, foi sumindo, sem que ele percebesse. Um momento, um amigo, um lugar, uma lembrança, uma esperança, tudo foi sumindo, e foi sendo substituído pela vida que ele vinha a aceitar - rotina, regras, repetição e aceitação. Viu, que sem que ele percebesse, as coisas foram se afastando de sua vida, e ela foi esvaziando. Viu seus erros, e sua impotência diante deles. O homem tinha, através de suas não atitudes, de sua aceitação e submissão, traçado o seu destino e agora, se encontrava fraco demais para realizar qualquer coisa diante de tal situação. E ali, sentado, parado, sozinho, sem nenhum sentimento que o pudesse preencher e dar um novo sopro para o começo de uma vida, o homem, aceitando novamente seu destino, pereceu, e sem que ninguém percebesse, deixou de existir.

7 de fevereiro de 2009

A Nau dos loucos partiu


A Nau dos loucos partiu, mas se esqueceu de alguem, alguem que ela não viu, e ficou sozinha, no meio da neblina, que era o esquecimento do mundo. Sim, aquele passageiro era cativo, de espirito ativo e problemas a se espalhar como o fogo de uma chama na palha. Era um gênio, um louco, um sopro de adeus que invadia a alma de todos os que o ouvia de alguma forma na tarde vadia que custava em terminar. Ele era assim, alguém que sonhava e a vida levava num conto de tolos e de espíritos soltos.

A Nau dos loucos partiu, mas se esqueceu de alguem, que se feriu ao olhar a própria realidade, com austeridade e relutância, total discrepância, mas ele não se importava. Realmente não se importava, e ninguém entendia o que ele fazia olhando para o céu e rindo do amargo da vida, na sujeira e loucura ele ficava feliz, sem ninguém compreender o que ele via no seu próprio nariz. Ele era mais que um sonhador, era um vivente de um mundo onde os sonhos e a realidade simplesmente eram iguais. Normais eram os outros, coitados e presos de um mundo de medo e sem esperança de alegria. Sim, ele vivia a fantasia do amor a se realizar, do mundo a se conquistar, e da verdade a se esbaldar. A mentira com maestria se tornara realidade, e nada o negava do mundo que era apenas a sua vontade.

A Nau dos loucos partiu, mas se esqueceu de alguém, mas esse alguem não existiu, no momento da partida da nau. Sim, ele simplesmente sumiu, e não mais foi encontrado, no meio dos seu semelhantes, virou um andante de coração selvagem e livre, onde na neblina daquela noite ele se ocultou, e nunca mais voltou. Ninguém viu, mas o homem saiu, e não entrou naquela nau, e partiu sozinho, seguindo o seu torto caminho, que não levava para lugar algum. A Nau dos loucos partiu, mas ninguém sentiu falta daquele homem, ninguém se importou com sua ausência, e ninguém suportaria a sua existência, por isso, ele não mais existiu, e junto com a Nau, para uma outra realidade, mais uma vez, o homem partiu.

18 de janeiro de 2009

Uma praça pequena


Aquela era uma praça pequena, pequena praça de luzes serenas e ventos amenos em sentimentos que floriam das arvores que ali viviam, e geravam para os que passavam muito mais do que sombras que refrescavam e protegiam os pensamentos daqueles que viajavam em letras e imagens perdidas num tempo que era só deles. Daquelas belas arvores que geravam as sombras de fim de tarde, o fruto que era colhido ali era o leve e confortável sentimento de bem estar, uma tranquilidade típica que só quem conhece a simplicidade e beleza das coisas puras pode descrever ou vivenciar. Ali era mais que um lugar, era onde pessoas encontravam um sentido novo, único dentro de suas agitadas, perdidas e desgastantes vidas. Ali, aqueles que tinham a coragem de enfrentar o todo que é as forças que envolvem uma vida nada simples chegavam e construíam um mundo todo particular, presente apenas naquele espaço pequeno.

Aquela era uma praça pequena, pequena praça onde crianças com graça brincavam de serem crianças, pois o mundo já não as queriam mais, perdidas em ilusões irreais que não constroem mais nem fazem a cabeça voar. Sim, as crianças desaprendem a voar, e aquelas coisas que só as crianças podem alcançar se encontra na praça, bem naquele espaço de tempo que se localiza no final de uma tarde. A areia mágica do chão suja os pés de liberdade de cada uma que se manifesta contra a vida contemporânea usando suas artes de serem felizes de maneira tão intensa, própria e completa. Ali, naquela praça, criança era criança. Ali, o cuidado com ela era o necessário, os pais se orgulharam em ver cada filho sendo mais que um filho, e bendito são esses corajosos pais que quiseram muito mais que seus próprios desejos para as suas proles. Sim, aquele era um espaço mágico, feito para que a magia da infância entornasse em cada canto, em cada espaço, e as brincadeiras se tornassem perfeitas naquele espaço de tempo do final de tarde.

Aquela era uma praça pequena, pequena praça onde as pessoas se encontram, buscam dentro do coração a lembrança de dias que se foram, de amores que se nascem, de alegrias que se perdem, mas se renascem a cada instante. Sim, ali todos são bem vindos, e a melancolia misturada com alegria surge sempre naquele final de dia, onde pássaros se recolhem nos seus cantos que só eles escolhem, mas a vida sempre continua, e pessoas andam pelas ruas que de alguma forma desembocam naquela pequena praça. Os personagens se misturam, formam uma peça sem roteiro, uma festa sem motivo, uma dessas reuniões que não possui anfitrião, apenas a emoção de ter um pouco mais de vida pura e simples que aquela pequena praça pode oferecer. Nela vejo senhoras andando, homens se exercitando e mulheres passeando, casais namorando, cachorros se esbaldando e tudo mais que existe de tranquilo e simples. Sim, eu vejo, naquela pequena praça, um pedaço do interior que trás consigo a pureza de uma vida mais simples, justa, sincera e feliz.

Aquela era uma praça pequena, pequena praça do meu passado, pois a noite caiu, a vida seguiu, e a praça sumiu, não sei o que se tornou, mas deixou nela todo o meu amor, e a saudade ficou naquele espaço de tempo perdido na memória que se localizava naquele final de tarde. E assim, levo comigo a cada dia dentro de mim um pouco daquela pequena praça, guardada em meu coração, com o carinho que é dado a tudo que me é querido, pois ela sempre me lembrará que a vida simples é possível, e que a felicidade se localiza sempre logo ali, ao alcance de nossos sonhos. Pois aquela era uma praça pequena, mas imensa na memória e na minha imaginação.

28 de dezembro de 2008

O Domador de Estrelas


Essa é uma história bem antiga, do tempo em que a vida era apenas uma brincadeira, e astros e estrelas ganhavam cores a todo instante, num baile de nascer e morrer a cada momento, antes mesmo do homem ter conhecimento das coisas da vida. Nessa época, existiam todos os tipos de cores dentro do nosso universo sem fim. E dentro dessas cores, nasceu um amor, e é sobre esse amor que se trata essa história.

Dentre todas as criaturas existente no universo, era ele, uma criatura única, com podere sobre todas as estrelas, conhecido simplesmente como o Domador de estrelas. As estrelas eram reféns de suas vontades e dessa forma, ele brincava com todas elas. Um certo dia, o Domador veio a sonhar, e nesse sonho encontrou uma estrela, e dessa estrela ele se apaixonou, mas a perdeu ao seu despertar. Então, ele passou a vagar solitário em busca da estrela que havia encontrado em seus sonhos e nunca mais pensou noutra coisa em sua vida. Dessa forma o Domador de Estrelas encontrou sua cina, e atrás dela ele passou a vasculhar os diversos cantos da imensidão do todo que era o universo, até que um certo dia, ele veio a encontrar uma bela e brilhante estrela, sozinha, solitária, e dessa forma resolveu conhecer-la melhor. Olhou diretamente para ela com os seus dons de Domador e viu a beleza de seu brilho perdido pela tristeza, sua forma e intensidade escondida pelo tempo, percebia como os anos de solidão acabara por esconder parte dessa beleza que ele como o grande e único Domador de Estrelas do universo era capaz de perceber. Via que pela dor, a estrela acabara por se transformar naquilo que não era de fato, uma estrela morta, sem brilho, pois há muito se encontrava isolada das demais estrelas e astros do universo. E ali, naquele canto isolado do universo, ambos se encontraram.

No começo, a estrela se surpreendeu com a presença do domador, pois aquele era um ser único, capaz de compreender tudo sobre sua existência, e daquele momento em diante acreditou ter encontrado no Domador o seu destino. Ele, por sua vez, decidira parar por aquele instante para observar a beleza daquela estrela, admirar seu brilho e sua forma, e tentar, utilizando seus poderes e conhecimentos, recuperar parte do brilho que estava escondido atrás de anos de solidão. E assim, ali, os dois ficaram, se envolveram, se conheceram profundamente e se completaram. O Domador cuidava da estrela com toda a sua sabedoria e dedicação, e ela crescia cada vez mais, se tornando mais e mais bela para todos os seres do universo que agora podiam enxergar-la e admira-la. Era como se uma nova estrela tivesse nascido no universo, independente do fato dela estar ali desde sempre. E o Domador se mantinha a admira-la, mais do que todos os demais seres.

Porém, por mais bela que fosse aquela estrela, ela não era aquela que apareceu nos sonhos do Domador, e ele sabia que logo chegaria a sua hora de partir, mas queria fazer isso sem que o brilho dela se apagasse novamente e ela volta-se a se tornar esquecida pelo mundo. Por mais que o desejo de admirar a beleza da estrela por mais um pouco fosse muito forte dentro do Domador, ele sentia que era hora de partir, antes que a estrela se torna-se ligada a ele a tal ponto que seu brilho dependesse da presença e existência dele. Então, por mais que não fosse sua vontade, ele partiu, deixando para trás uma das mais belas estrelas que já havia conhecido, e que iria vir a conhecer em sua vida. Partiu novamente solitário, em busca daquela estrela que um dia ele encontrou em um belo sonho que tivera.

Se ele viria a encontrar a estrela de seu sonho, não sabia. Mas ele via que aquela bela estrela que aparecera em seu caminho não era a que procurava, e não seria a ultima estrela a aparecer em seu caminho, e por isso seguiu, na esperança de um dia, o seu destino de encontrar a estrela de seus sonhos se concretizasse e ele pudesse se tornar completo ao lado dela. E possivelmente, sabia que deveria encontrar outras estrelas como esta por quem ele passou e iluminou, e deveria fazer o máximo para que as tornassem mais uma estrela a brilhar no universo. E dizem que até os dias de hoje, o Domador de estrelas viver a procura dessa sua estrela dos sonhos, fazendo brilhar as diversas estrelas que surgem em seu caminho que existem espalhadas pela imensidão do universo, deixando as noites iluminadas com novas e novas estrelas a brilhar.

27 de dezembro de 2008

O Diamante e a Pedra


E assim surgia uma pedra no caminho daquele viajante, e ela não era uma pedra muito grande e nem ocupava tanto espaço assim, era uma pequena pedrinha ruim, pois pouca coisa conseguia esconder com sua suja superfície, mas se encontrava no caminho daquele confuso viajante. Mesmo com sua pouca capacidade de esconder as coisas que por acaso se colocasse atrás dela, ela conseguia confundir o viajante que parara pensante em frente a pedra. Se encontrava paralisado por aquela estranha situação, de grande confusão mais demasiadamente real, pois aquele viajante carregava consigo um bem muito precioso e único: um belo e brilhoso diamante. E o tal diamante que ele possuía brilhava demais, com a intensidade do sol que invade o começo da manha trazendo a esperança de um novo dia depois de uma noite fria e solitária. E mesmo com todo esse brilho e toda essa beleza, o diamante se encontrava escondido atrás daquela pequena e inconveniente pedra. Mas como era essa uma pedra não muito grande, mal conseguia esconder o belo diamante, que brilhava tão forte que sua intensa luz causava admiração por todos aqueles que passavam pela estrada, pois ali estava o estranho viajante, parado, incapaz de pegar seu próprio tesouro, um preciso diamante, perdido com sua dor e angústia por não ter mais sua riqueza em mãos. Tentava pensar, adivinhar, descobrir o destino do seu querido diamante, que por conta própria ou por alguma brincadeira do destino escondera sua pedra preciosa atras daquela feia pedra que se encontrava ali, não muito grande e sem muita importância para aquela tortuosa estrada, cheia de pedras de diversos tipos. Mas foi naquela exata pedra, naquele canto de estrada que o estranho viajante havia parado sua jornada, havia perdido sua rota e o seu rumo em direção ao seu destino. E assim, ele se quedava pensativo e apreensivo, buscando um solução qualquer para sua situação, pois não estava mais de posse de seu belo e brilhante diamante. Dor, angústia, desespero, todos esses sentimentos vieram a substituir o diamante, pois além de ser belo e brilhoso, ele tinha a capacidade de trazer alegria e paz ao coração de quem os admirasse, e principalmente para seu possuidor. Sem o diamante, o viajante deixava de ser, pois não mais havia sentido em sua jornada, e com o tempo, começava a perecer e padecer naquela estrada.

Aqueles que passavam se admiravam facilmente com o brilho do diamante, que era visível para qualquer um que reparasse rapidamente na cena estranha do viajante paralisado e angustiado. Mas podiam nada fazer com aquela situação, pois apenas o viajante era capaz de suportar o brilho que lhe aquecia o coração mas queimava a alma de quem não o era seu possuidor. Se um estranho se aproximasse da luz, chegava quase a cegueira, e se tentasse tocar, tinha suas mãos quase queimadas, e assim, por mais belo que fosse tal diamante, o preço a se pagar para ter uma pedra que não lhe pertencia era caro demais, por isso ninguém pegava tal diamante, ou se tentasse, desistiam de tal intuito. Todos tentavam avisar ao viajante sobre a pedra, mas ele simplesmente respondia que tal pedra não existia, que essa história não passava de tolice. Dizia com braveza e muito rigor que tudo isso não se passava de ilusão da mente dos demais viajantes pelo cansaço da longa viajem realizada. Contradizia a sua própria realidade, sustentando a sua dor e confusão por não mais seguir sua trilha em direção ao seu destino, e por não possuir seu bem maior e precioso. Assim, todos então partiam achando que o viajante era um louco, ou então acreditavam na história contada por ele, e seguiam seu caminho, desistindo de qualquer intenção sobre o viajante, por mais que suas vontades os dissessem para fazer o contrário, pois a força de resistência imposta pelo viajante era grande demais.

E assim, como acontecera várias e várias vezes, muitos passaram pela presença do solitário viajante, deixando-o para trás, solitário e triste. E ele, se manteve lá, naquele canto de estrada, parado, pensativo, sem saber o que fazer com a perda de sua riqueza que apenas ele era capaz de possuir. O viajante não podia ver, mas a solução para seus problemas e o caminho para continuar sua jornada estava muito próximo de suas mãos, e só ele seria capaz de conseguir-lo, mas estava cego pela angustia, tristeza e solidão causado pela perda de seu bem mais precioso. E assim, ele esperava pelo dia em que voltaria a brilhar junto com seu diamante e seguir pela trilha em direção ao seu destino.

23 de dezembro de 2008

Por que escrever?


Por que escrever?

Por que escrever? Não se sabe, mas se deve, é uma obrigação que não é obrigada, um dever que se cumpre apenas por querer, por se ter e por se ser aquilo que se é. E por que escrever? Porque quando se escreve, se expões o que há em você, o que há em outrem e o que há em ninguém, tudo dentro de um mundo surdo que ganha voz quando o leitor absorve cada palavra e cada sentido rendado pela mente do escritor. E esse senhor ou senhora que outrora não sabe o que faz e como fazer simplesmente o faz, segue um rumo só seu, e não para jamais, para quando chegar ao final da jornada, o resultado dessa caminhada é um belo e lindo universo particular, um novo lugar, cheio de novos sentidos, que vem pelos olhos como se fossem ouvidos e bocas e dentes, e a pele que sente o calor de uma vida surgindo assim, como se houvesse magia, pois essa é a vida de quem cria vida.

Escrever torto com tanta necessidade de ser algo que não se é, inventar o que não quer existir, fazer força para tornar a ilusão que luta para não ser real. Essa é a batalha do escritor, aquele que desbrava universos perdidos dentro de mentes e sonhos e desejos sem fim e nem fundamento. Fala de amor, ódio e tormento; angustia, medo e alegria; fantasia, magia e ilusão, tudo misturado em versos e trovas e notas de uma música guardada na mente de quem lê e entende o sentido que quer, seja do autor ou seja o que vier. Mas aquele que passa esse sentido que vem de dentro e invade a totalidade de um ser, esse é bem sucedido no que faz, é capaz de dançar com o tempo, com a lógica e com a verdade mais absoluta que um tolo qualquer insistiu em dizer que era real. Ora bola, o coitado não viu que o real já existiu e deixou de ser no momento que a ilusão se tornou o querer da mente de quem lê, e rele e consegue esse mundo entender. Com calma ou com pressa, com medo ou avessa, coragem ou ousadia de ter vida vadia de quem vive num mundo que não existe, pelo menos pro tolo que persiste na crença do absoluto, real e único, conjunto que não se divide e se limita a regras escritas, por sonhadores marcados e traçados pelo lógico, o real e o reto. Não, eu vivo das curvas, das linhas que não dão em lugar nenhum, dos destinos sem ponto final, dos caminhos sem rumo, eu vivo da incerteza de se ter um final certo. Meu final, eu mesmo construo, e ao mesmo tempo me é construido, e assim, formo um texto, um mundo e uma vida. Assim, faço sentido o que o tolo duvida.

E me da nostalgia quando eu penso em seguir a viagem, vontade que passa ao iniciar cada passo dado, nesse meu estado de espírito chamado escrever. Ler é ter, é ser e crer que aquilo que está num simples papel em letras e mais letras é simplesmente possível, mesmo que a burra realidade diga que não. Assim, se não pode, problema não é meu, nem seu nem de ninguém, é só daqueles que não sabem ou não conseguem viver nesse mundo sem limites ou fronteiras, onde homens e bandeiras se misturam em cores e flores e amores, pois tudo pode ser, é só querer e seguir, pois se está escrito, a verdade é dita, nas linhas firmes e aflitas de um intenso e desejoso, quem sabe até um esperançoso escritor.

E você que me lê, talvez não entenda nada do que eu escrevo. Tudo bem. De certo nem eu sei dizer porque o faço, simplesmente sigo o que manda meu coração, e dessa forma eu sigo, fazendo essas trilhas chamadas de linhas que formam todo esse meu caminho. E assim, eu formo e faço me texto, sem sentido ou contexto mas quem sabe ele tenha a pretensão de atingir um coração e elevar a alma de quem sonha e chora a dor de uma vida escondida nas sombras, mas que de dia se liberta e faz uma festa pela vida que segue sempre em frente como essas linhas. Sem sentido, talvez. Mas sei que um dia tais linhas serão todo o sentido de alguém ou quem sabe, até o meu próprio sentido de fazer mais uma vez o porque de se escrever.

Tanto escrevo e ainda assim me perco, em linhas e linhas de textos e pretextos para expor minha agunia, alegria, fantasia e toda rebeldia, seja por simpatia ou por falso amor. Sinto dor, e ela vira palavra, letrada ou mandada, sempre seguindo o caminho do nada, o caminho que é só meu, e eu nem sei o que faço, apenas paro e continuo, seguindo os traços de um pensamento perdido, mas no texto achado. Engraçado como se desenvolve, e me envolve, me toma e me domina. Escrever, talvez minha cina, talvez um lazer com o prazer de fazer algo em mim tornar-se real, num mundo tão duro, cruel e muito mal. Sim, é o mundo de fora que eu não quero estar, quero viver de minhas letrar e fazer ali o meu lar, o meu lugar. Entenda o que eu digo, e te dou um abrigo nesse mundo inventado, confuso e complicado achado na minha imaginação, criação de alguém se segue por instinto o sentido de um texto, que pode ser todo, ou nada. Depende dos olhos, da vontade, da imaginação de quem lê. Se escrevo, é só pra você, leitor, e nada mais, pois atrás dessas linhas, está um desesperado, exaltado e maltratado, delirante num mundo sem lógica, irreal e duro, como é a verdade seqüencial, tão banal que em minutos me perde a graça. Por isso eu invento, reescrevo e penso, que todo o lamento e dor pode ser poesia, alegria ou fantasia, depende do olho, da vontade e do coração que bate em meu peito. Não sei direito, mas sigo assim, escrevendo sem fim, até que o dia, o texto termine.

Se você ainda não entendeu o porque escrever, nunca entenderá, pois porque não existe, e não existe porque, e não existirá, e por isso ou aquilo, por esse motivo, é que existe esse mundo, todo esse mundo, onde se escreve e se inventa mundos e tudo é assim, como se quer e se deseja, a sua vontade, ou a vontade de quem molda a verdade, essa única verdade que só existe dentro do mundo que foi escrito, descrito e assim tornou essa verdade escrevível.

Pra quem se escreve?

Pra quem se escreve? Seja uma carta de alarde ou um poema de amor, escreve-se sobre dor, paixão, sofrimento e ilusão, sente-se o que se quer, e o que se deve sentir. Mas por que insistir em linhas que não se sabe que destino tomarão? Não, não se escreve em vão. Se escreve para si, e o si é o outro, juntos em sentimentos, embolados na loucura das linhas escritas, distintas para cada olho dado em cima. Assim, a cina do escritor é buscar o leitor, para quem merece, para que percebe e para quem é dado o convite da viajem para esse mundo particular. Mas o mundo, ao ser descrito, perde propriedade do autor, e ganha a popular, aquela de quem quiser chegar, e quem fazer com que o escrito seja o que se quer.

Sim, há um objetivo em se escrever, e vai além do desejo do escritor de expor o seu interior. Não, se escreve para colocar ao mundo a chance de uma viajem, de uma nova realidade, sem dores ou com desespero, espelhos mil criados para que o homem se veja e tenha o sentimento que tiver. Se escreve para alguem, e para que esse alguem faça um porém em tudo o que vem do texto feito, seja com cuidado, seja as pressas, seja mal tratado ou seja com carinho. De pouquinho em pouquinho, vai se lendo e dando cores e vidas ao mundo que não é mais do escritor, e sim do leitor. Esse leitor é o dono da escrita, é o objeto do desejo do autor, é o senhor do mundo a ser criado. O mundo é pessoal, cada um tem o seu, e aquele que se aventura pelas linhas de um texto, simplesmente cria novos mundos, mundos mil, onde a febril vontade de descobrir é saciada pela vontade de ter cada palavra dentro de um novo peito. Assim sendo, escrever é uma transfusão de mundos, é onde as palavras do autor invadem o coração de quem está lendo, fazendo com que uma nova e inédita realidade se crie. E pra esse exercício fantástico, não há limites.

Eu me limito, sou limitado, apenas escrevo, digo o que penso e faço o que meu coração manda, e ele manda sempre palavras que se ligam num sentido único, mas o objetivo sempre é o outro. Meu coração pede pelo outro, vive pelo outro, ele existe em função do outro, e a minha escrita é a extensão dessa vontade. Não há sentido na vida amarga de um texto perdido. Texto sozinho é texto morto, texto vazio e sem significado, não vale um trocado, por mais ricas que sejam suas palavras, dadas ou vendidas, compradas ou subtraidas, feitas de objeto para um objetivo sem propósito, sem causa e nenhum valor. O texto precisa do leitor, ele viver desse amor, e sem ele, não há sentido de existir. Pra quem se escreve, para aquele que ama, ou que quer amar, quem quer se aventurar e inventar seu próprio mundo. O leitor é o significado profundo da existencia dos textos. Sem eles, cada palavra vale menos do que o vazio da dor.

17 de dezembro de 2008

A luz que não brilha para todos


Por que as luzes não brilham para todos? As vezes, elas simplesmente desaparecem da visão daqueles que mais precisam, dos que mais desejam, ou seriam mesmo eles os mais desejosos entre todos? Não sei, não posso dizer, não conheço todos e nem nunca vou conhecer. Só sei que o desejo pela luz é comum, é natural do ser humano. E caso esse ser não o tenha, humano não é, não em sentido, não em significado. É algo como um papel usado, mofado e guardado, para nunca mais vir a tona. E para esses sim, a luz não deveriam brilhar, mas elas brilham. Para eles e para outros, aqueles que muitos desejam que não sejam humanos, mas o são. Sim, depravadores da realidade e da delicadeza que é a vida, esses também, assim como os não humanos, não merecem a luz. Mas elas brilham para eles. Se até para eles elas brilham, por que as luzes não brilham para todos?

O nosso caso de acaso marcando o passo dado a cada minuto, faz com que o conjunto de luzes e cores complete a vida nesse instante ou naquele momento, onde todo o sofrimento se desfaz e dar lugar a esperança e alegria contida na vida que agora brilha. Pois nesse momento, a luz brilha, e como ela brilha. Brilha pra mim, brilha pra você. As vezes, ela brilha mesmo sem precisar, evitamos-na. Sim, fugimos da luz, pois ela machuca, quase cega, faz-se violenta, ardente em nossos olhos, que vislumbram a vontade de ter tudo aquilo que se deseja. E a luz brilha, seja de dia, seja na alegria, mas fazia com que a menina que brinca na manha sem guia que seguia o sentido de um rio, vazio de preocupação. E a luz era a dona daquele momento, fazendo o lamento da mãe que perdera o pai da menina em guerras de bares e lugares vendidos e perdidos, todas se iam embora para a escuridão.

Mas não, não acreditem que é sempre assim, pois a luz, meus caros, ela não brilha para todos, e eu me interrogo, por que não a faz? Será por rebeldia, ou por algo que se desvia do interesse dessa senhora de desejos e orações? Será pela importância que movem ganancias e arrogâncias arrotadas pelos nobres em seus caros colchões? Será que pelo motivo mais besta que a fila para a cesta de frutas perdidas no tempo do esquecimento se fazem podridão? Não, não vejo motivo, só vejo o abrigo daqueles desprovidos da felicidade de ter a luz em suas vidas, pois essa tão querida e desejada ilumina e maltrata qualquer que seja a sua solidão. E sem ela, sem a luz, a vida tem sentido pouco, você se vê como um louco, pedindo sozinho para alguem o perdão de algo que nunca fez, se vê em nudez condenada, passada e marcada com a tristeza de uma vida incompleta, porque a luz é quem faz a vida mais certa. Então me responde você meu leitor, por que as luzes não brilham para todos?

15 de dezembro de 2008

Brincando com o tempo


O que fazer com os meus dias. Eles parecem não se comportarem mais, são como crianças sapecas querendo brincar com minha razão. Meus dias terminam no começo, e começam no fim, e assim eu sigo vivendo cada momento que me poda existir. O dia que leva a vazia esperança de ter uma mudança que alivia a barriga daquele que só se alimenta de amor e afeto, decerto não mais consegue se alimentar. Pois os dias não deixam, eles vem e se deitam quando eu quero levantar. E se fazem de sonso quando quero pensar, e se eu os vejo, eles fogem e correm pra longe, bem longe onde eu não possa alcançar.

O tempo é como um ser capaz de ler os meus pensamentos e sempre ao contrário vai fazer de acontecer o que eu não quero, deixando o que eu não posso, pois é o senhor do momento. Porque esse tempo também está brincando com minha existência, com minha carência e minha paciência, e não sobra nada, apenas uma estrada confusa e sem rumo, que devo seguir. Mas não, não adianta, não vou desistir, vocês vão aturar até esgotar meu ultimo pingar de suor sofrido, pois será tempo corrido num dia passado, e eu serei aquele premiado pois no final da estrada estarei lá, de pé e imponente, esbanjando o que sente sem o menor pudor. Sim, eles vão ver, esses dois brincalhões que me chamam de bobo, me fazem palhaço, me nutrem o cansaço e me tiram a alegria, tentando fazer da minha vida vazia e assim eles seguem tentando sozinhos.

São dois bobos alegres, é isso o que são. Se acham espertos mas são ilusão, o tempo que correr e não pode parar e o dia que segue para o mesmo lugar. E assim eles seguem como dois irmãos bestas tentando levar o que a vida nos dá. Mas dá de presente, presente bem dado porque a vida sim, é senhora de tudo, do bom e do malvado. Ela pode fazer e pode deixar, ela pode tudo é senhora do lugar, e o tempo e o dia só podem olhar e com seus olhos baixinhos a bela vida admirar. Então eu escolho seguir com a vida, enquanto o tempo brinca com o dia pra ver em qual alento ele se alivia. Mas eu vou assim, levando de tudo com o que posso e não posso, e as brincadeiras do dia e do tempo são como um susto ou um vento que passa e se sente pra logo depois rapidamente esquecer de vez, e nunca mais essa brincadeira outra vez.

10 de dezembro de 2008

O Ritual


Aquele homem da floresta já tinha vivido muitas coisas em sua vida, e agora, por conta de todas essas coisas, ele se encontrava em um momento crucial em sua curta mas intensa vida. Estava simplesmente sozinho, acompanhado do frescor da florestas, dos sons e luzes da mata e de seus puros e conturbados sentimentos. Ele andava em direção daquele que deveria ser seu destino, a sua redenção. Sua história era algo que fugia do principal preceito das tradições de seu povo, e por isso, ele se encontrava ali, naquele lugar, buscando a busca mais nobre que um homem pode almejar. E assim, seguia em frente, e olhava bem para seu peito, levando a marca que só agora, naquele momento, ele pode perceber o seu significado.

Quando nascera, o homem da floresta foi indicado para uma função importante dentro da sociedade de seu povo. Seria ele, como assim sempre foi em sua família, o grande chefe daquele pequeno e isolado povo da floresta. E assim, ele viveu uma vida comum, sem saber do seu destino, como sempre foi feito nas tradições de sua gente. E foi crescendo como uma criança qualquer, até que chegou o dia em que sua cina clamava por sua presença, era feito o chamado pelo futuro novo líder. Aos 15 anos de idade, o menino seria marcado, não só emocionalmente, mas fisicamente com o símbolo da liderança. E aquilo lhe doeu, a cada martelada dada em sua pele, um pedaço de sua alma se desfazia, e o menino não queria ser um homem, muito menos ser o líder. Queria fugir, mas a brutalidade de sua tradição o fez ficar, agüentar, suportar e se suprimir a cada momento de dor e sofrimento. E assim, tanto seu peito quanto sua alma estariam marcadas para sempre. E o menino chorou, e em seu choro caíram as lágrimas, que correram a ferida em seu peito, e com isso, crescia a fúria em sua alma, e nada poderia deter tal força. E assim, o menino correu. Fugiu, e ninguém conseguiu o segurar, e da mesma forma, ninguém foi atrás dele.

Passaram-se dias, e o menino passou a viver só na floresta, e não mais queria saber sobre nada de seu povo. Mas um dia, a solidão lhe bateu tão forte, que nenhum sentimento e nenhuma razão foi capaz de conter sua investida em direção ao seu povo. Mas, chegando no local onde vivia, ele não foi aceito. Em seu lugar, escolheram outro como líder, e a honra de sua família foi totalmente destruída, e o menino expulso do convívio de seus semelhantes. Pela segunda vez, o menino chorou, e voltou para a sua floresta. E na floresta ele envelheceu, e com isso foi perdendo sua razão, e virou apenas mais uma criatura da floresta. Aprendeu a viver entre os seres viventes daquela região. Aves, macacos, cobras, plantas, rios e árvores, e passou a conhecer os mistérios e segredos da mata. E passou a entender e sobreviver às criaturas das lendas de sua infância. Todas elas eram tão reais para ele quanto o era na época em que os mais velhos a contavam. E assim, virou o homem solitário da floresta.

E em um desses dias, ele percebeu que algo havia acontecido com seu povo. Investigou com seus sentidos e sentimentos do que se tratava tal acontecido, e logo descobriu o motivo do alvoroço. Soube que, a criança escolhida para ser o novo líder da comunidade havia caminhado em direção a mata e não havia voltado. Todos contavam que a criança foi levada por Iemarê, uma criatura vil que tem como intuito se divertir com o sofrimento dos mais jovens e os tornam perdidos em seu reino que é a floresta. E acreditavam que toda criança que fosse pega por Iemarê nunca mais retornaria para o seu lar. O desespero foi total entre as pessoas do povo do homem da floresta, pois não sabiam o que fazer, e não havia mais crianças para serem eleitas como líder da comunidade, pois apenas as poucas escolhidas poderiam exercer tal papel. Seria assim, o começo do fim daquela comunidade.

Sabendo disso, o homem da floresta botou a mão no seu peito, e arranhou sua marca que trazia desde a época que sua alma foi despedaçada. Logo depois, olhou para ela, que estava vermelha e viva e percebia que era como se ela tivesse acabado de ser refeita, pois era isso que representava para ele aquele momento. O homem da mata estava tendo mais uma chance de refazer sua história, pois sabia que o único ser capaz de lidar com Iemarê era ele, e ele seria capaz de salvar a criança. Então, pensou em tudo o que passou, em toda a dor, e no momento que ele se encontrava. Estava ele, novamente diante do seu ritual, só que dessa vez, um ritual de recomeço. E lá se encontrava ele, novamente diante do seu destino, pensando em qual decisão que ele iria tomar daquele momento em diante. Depois de pensar muito, ele olhou para sua marca no peito, e mais uma vez ele a segurou com força, nesse momento, pela terceira vez, ele chorou.

6 de dezembro de 2008

Noite Solitária


No meio da noite, assim como se um tiro invadisse o silêncio do seu quarto, ele despertara repentinamente, com um salto que o botara em alerta naquela noite escura. O suor pingava de seu rosto e o ar saia apressado de seus pulmões, como se tivessem a urgência de quem está preso a décadas num local desolado. Respirou profundamente, uma, dua, três vezes, e aos poucos, foi retomando seu estado normal de consciência. Estava ele, sentado em sua cama, sozinho na noite escura, dentro do seu quarto que a horas atrás era o local mais seguro do mundo para aquele homem, e agora não mais o era. Ele olha para um dos lados, e logo em seguida para o outro, a procura de algo que ele ainda estava para descobrir o que viria a ser. Não encontra, pois no seu quarto, só há escuridão e solidão.

Então ele com sua mão busca algo em seu leito, mas não encontra, pois ela, sua amada, sua mulher e razão de sua vida, não mais faz parte deste cenário sombrio e solitário. E isso faz anos, mais de um ano. Exatos 3 anos que aparentemente aquele homem havia parado no tempo, no espaço, e não mais existia, apenas seguia o fluxo que a vida lhe impusera todo dia. Sim, a perda de sua amada foi como a perda de uma vida, como o fim das esperanças e alegrias que um homem pudesse ter. Por anos, a cumplicidade daquele casal simplesmente completava todo o ser que era aquele homem, e com a mesma velocidade, a mesma brutalidade e intensidade que ele despertara naquela noite, ela se foi, para nunca mais voltar. E por isso, aquela era mais uma noite solitária.

Então, se dando conta de sua realidade e voltando para a sua triste vida, ele abaixa a cabeça como se aceitasse a derrota sem ao menos começar a lutar, e secava seu rosto, dando o ultimo suspiro profundo, como um adeus dado a um trem que partia para não mais voltar. E foi nesse exato instante que ele ouvia um barulho. Um estalo, um forte estalo que vinha da sala que ficava atrás da porta localizada a sua direita. Olhou rapidamente para seu relógio, que ficava como testemunha de sua solidão em sua cabeceira ao lado de sua cama. 2:35, marcava ele, como que se quisesse dizer que aquela era a hora dos desesperados, pois a solidão é mais forte nessas horas e a dor que ela causa mais profunda. Mas não estava preocupado com ela, não. Hoje, algo acontecera, um estalo, forte, vindo da sala, que ficava atrás da porta marrom de madeira, a sua direita. Não sabia o que fazer, aquele homem, naquela noite, pois as sombras dessa vez, trazia um tempero diferente, o medo do desconhecido. Não mais estava acompanhado da sua tão conhecida solidão do dia a dia. Dessa vez, quem estava na sua companhia era algo que ele ainda viria a descobrir, ou não.

Engoliu seco, pois não havia água por perto para acalmar sua garganta naquele momento, e com um movimento rápido e tenso, ele se colocou sentado na beirada da cama, para em seguida, estar de pé, e caminhar, lenta e cuidadosamente em direção a porta. A cada passo dado, ele podia ouvir mais claramente o bater do seu coração, que parecia ganhar forças com a proximidade daquela porta de madeira. Naquela noite, ela deixava de ser uma simples porta, e se tornara algo mais. Então, com suas mãos, ele alcançou a maçaneta, que, como se fosse proposital, estava mais gelada do que nos diversos dias que ela foi utilizada por aquele homem. Agora, toda sua história, todo seu passado, seus planos para um futuro, suas lembranças e recordações, simplesmente perderam o sentido. Nada mais tinha valor, a única coisa que lhe era importante era aquele momento, e o que aconteceria com ele ao abrir a porta. E então, ele respirou fundo, mais uma vez, tomou coragem e se decidiu, e o fez. O homem abrira a porta que dava para a sala, onde a minutos atrás ele havia escutado um estranho ruido, um estalo, como se algo tivesse acontecido ali.

Olhava pra sua sala, não tão grande, não tão pequena, apenas solitária, cheia de móveis e outros objetos insignificantes, mas vazia de sentimentos e desejos. Ele olhava pra todos os cantos daquela sala. Olhou para a porta que dava para o corredor da rua. Nada. Olhou para a mesa no centro da sala. Nada. Olhou para o armário na parede contrária. Também nada. Então, passou o olhar rapidamente pela sua janela, e como se alguma coisa estivesse escondida e por algum motivo perdera sua capacidade furtiva, ele pode ver uma leve movimentação, atras da cortina, no canto extremo da sala. Por mais que soubesse que as sombras e luzes da noite sempre enganam as mentes mais impressionáveis, nada o convencia de que aquele lugar era seguro. Sentiu uma vontade desesperada de trancar a porta e só sair na manha seguinte, mas ao mesmo tempo, seu coração traia sua razão, e ele não conseguia entender o porque. Assim, por força do coração que clamava por algo que ele não conseguia compreender, o homem decidiu caminhar em direção ao possível visitante misterioso, escondido por detrás das cortinas de sua sala. Dessa vez, ele foi ao encontro do desconhecido com vontade, determinação e coragem, motivado não se sabe muito bem por qual loucura. Afinal, aquela noite decididamente era uma noite onde as loucuras estavam livres e reinavam naquele ambiente. E assim, ele foi, e com toda a força que possuía.

Olhou, atento, esperando encontrar algo, e o que ele pode verificar por detrás das cortinas, foi apenas o vazio da noite. Seu coração se encheu de angústia, e nesse momento ele percebeu o porque do seu coração investir tanto naquele espaço, com tanta vontade, porque dedicou tamanha força nessa empreitada perigosa. Ele percebera, que, apesar da loucura e dos perigos, o que o seu coração desejava era apenas, depois de anos de solidão, uma companhia que fosse, nem que essa estivesse presente apenas em sua imaginação. Mas aquela era apenas mais uma noite solitária.

1 de dezembro de 2008

O homem simples


Naquela rua distante, daquela cidade distante, vivia um homem, o mais comum dos homens. Era um homem muito, mas muito simples, e ali vivia, praticamente sem anda. O homem simples simplesmente vive, e na sua simplicidade, ele tem a cumplicidade de quem leva a vida assim, como se não tivesse nada com isso. Simples assim. Mas não é tão simples a sua forma e maneira de viver. Sim, para os outros, que desejam tudo de uma só vez, o homem simples é singelo, silêncio. Não compreendem, que há muita coisa por trás dessa simplicidade. Há sabedoria, há esperança, há sinceridade. Pois pra ele as coisas são assim, simples.

A vida do homem simples parece que pode ser contada em simples palavras, num simples momento. Sua verdade é tão simples quanto as que regem as coisas mais importantes e verdadeiras da vida. E mesmo assim, parece que só ele é capaz de enxergar a vida com toda essa simplicidade. E como ele lida com suas dores, seus desejos, será que esses simplesmente o domina? Não, não com o homem simples. Com qualquer outro homem sim, esses homens de vida cheia e ocupada, esse sim, vivem a vida dos seus problemas, angústias e falsa riqueza. Para esses homens, tão cheios de coisas e completamente ocupados, os infortúnios de suas vidas cheias acabam por se tornarem as maiores chagas da humanidade, as suas dores são as maiores do mundo, despedaçando as almas e a esperança de qualquer bom soldado, que trava suas batalhas sangrentas e diárias contra monstros e demônios do nosso tumultuado e confuso mundo moderno. O desejo desses homens simplesmente é o senhor de todas as coisas, dono da razão e da verdade, aquele que consome tudo que existe e o que um dia virá a existir. Mas para o homem simples, ele simplesmente vive longe disso tudo. Sim, em sua rua distante, em sua cidade distante, tais coisas simplesmente perderam o caminho, e foram parar lá longe, onde a vista não alcança. Sim, essas coisas de homens complicados e modernos simplesmente não existe na simples vida do homem simples. Para ele, seu desejo é aquele apenas, sua dor é a mesma de sempre, e sua esperança parece ser interminável, imbatível.

"Que vida chata leva esse homem simples?" Dizia assim o homem que olha de fora, julgando aquela vida como se não tivesse quase nada, fosse a mais vazia das vidas. Mas, seria realmente vazia essa vida ou isso seria fruto do olhar do homem confuso? O homem simples tinha a resposta para essa questão, e para muitas outras. Talvez o homem de fora, aquele confuso e conflituado discorde e consiga provar com todas as regras e crenças que há erro na vida do homem simples. Mas para o homem simples isso simplesmente não fazia o menor sentido. Afinal, o homem simples tinha tudo o que precisava, tudo o que queria, e em suas necessidades ele simplesmente precisa de mais nada, apenas continuar sua simples vida. E isso, só ele entende, só ele sabe vivenciar essa simples verdade. E é ai que mora a sua sabedoria, meus amigos. Essa simplicidade não é para qualquer um. Não, ela é um presente guardado apenas por aqueles que conseguem, depois tudo o que passam em suas longas jornadas, enxergar a vida de maneira tão simples e verdadeira. Eles sabem que, apesar de tudo, e de todas as coisas, nada mais é tão importante do que a simplicidade de se levar uma vida simples.

Podemos achar, com nossos olhos apressados e cheios de conceitos, normas e regras, que a vida do homem simples é pouca, é rasa. Mas não percebemos que essa simplicidade não é para qualquer um. Se tentarmos, não conseguiremos, pois para chegar até onde chegou, foram anos e anos de entrega, se desvencilhando das coisas que não são realmente importantes. Mas que coisas são essas? Praticamente tudo aquilo que tanto lutamos e batalhamos em nosso dia a dia para conquistarmos. E ali, naquele seu simples local, com seu trabalho simples, sua rotina simples, ele leva sua leve e pacata vida simples. Enquanto os outros simplesmente não entendem que aquilo não é uma simples vida, não meus caros, aquilo é muito mais. Aquilo simplesmente é a mais simples forma de se ser feliz. E ali, naquela rua distante, daquela cidade distante, vive o pacato e feliz homem simples.




Que todos despertem e valorizem a simplicidade de se levar uma vida mais leve, cordial e feliz. Que o homem simples que há em cada um possa nos trazer a paz e o equilíbrio que tanto precisamos nesses dias confusos e atordoados de nossas vidas modernas.

26 de novembro de 2008

Por isso eu as admiro


No mundo, não há nada mais especial, sublime e encantador do que a figura de uma mulher. Ela consegue exprimir o que há de belo dentro de tudo aquilo que é possível sentir. Elas conseguem ter a clareza de uma manhã ensolarada como o enigma de uma vida inteira. Você pode saber tudo sobre as mulheres, mas o seu tudo nunca chegará perto do que vem a existir sobre uma mulher. Muitos já tentaram, alguns até se iludiram achando que o fizeram, mas nenhum foi capaz de alterara essência do que vem a ser uma mulher, essência essa que já vem dentro de cada uma, como uma verdade pertencente apenas a elas. Elas nascem com algo a mais, com esse mistério que lhes foi dado por direito de nascimento e origem. Elas têm uma coisa que faz com que todos os outros seres simplesmente vivam para, de uma forma ou de outra, admira-las e deseja-las. E por isso eu as admiro.

Nela, os sentimentos são mais intensos e mais verdadeiros. Uma única mulher pode representar um mundo para uma pessoa, a inspiração para se viver, o elemento mágico que faz com que tudo tenha alguma lógica dentro do ilógico que é a vida. Ela desperta os sentimentos mais profundos de um homem, guardados a sete chaves em seu interior. Mas não, não existe força suficiente que seja capaz de manter tais sentimentos escondidos para sempre. Não. A força de uma mulher está ai, pois elas são seres nascidos para os sentimentos. Uma mulher rir, chora, sofre, sonha, pensa e se completa de verdade com as coisas que a vida tem a oferecer, e elas fazem isso, sempre que lhes é possível. Elas são toda sentimento, toda paixão, toda emoção. Tem dentro de si a verdade incontestável que é a beleza pura e simples de serem elas. E por isso eu as admiro.

Elas geram a vida, regem a vida, dão sentido para a vida. São mães, amigas, esposas, companheiras. Mas também são batalhadoras, amantes, sonhadoras, pecadoras e viajantes. São todos os papeis existentes ao mesmo tempo, mas também se dão, quando bem entende, ao luxo e direito de serem apenas uma mulher. Elas não são a base do mundo, nem o topo. Não. Elas são o elemento que o preenche, e o enfeita, que da o tempero a vida, que faz com que tudo seja mais colorido, mais vibrante, mais alegre e com mais paixão. Sim, elas se apaixonam, por nada, ou por tudo. Pois elas são mulheres, e isso lhes dão o direito de amarem, de gostarem, de sofrerem e de serem o que bem quiserem, para no final, serem apenas mulheres. E por isso eu as admiro tanto.

Sonhos e paixões elas são capazes de despertar, assim como o desespero e a loucura, a ganância e a inveja, o amor e a compaixão. São como seres encantados com o poder de contagiar todas as coisas com seus sentimentos intensos e enfeitar o mundo com sua beleza e paixão. O mundo brilha mais quando uma mulher entra nele, e o choro de uma mulher ao nascer é a cantoria do início de uma beleza a surgir, e a música que rege a esperança de um mundo melhor. A vida de um homem, sem sombra de dúvidas, é muito mais bela por causa dessas mulheres, incríveis e fantásticas, e sem elas existindo nesse mundo ele simplesmente perderia todo o seu sentido. E por isso que eu as admiro, tanto.


Obrigado mulheres por fazerem meu mundo ser muito mais belo e leve de se viver.

25 de novembro de 2008

A única história de um velho


- A vida mostra as coisas de uma maneira incrível.

E era assim que ele sempre começava a sua história, sua única e preciosa história. Eu, na primeira vez que ouvi, quando ele começou a falar, lembrei das palavras que se seguiram a essa introdução, repetida diversas vezes antes dele me ter como ouvinte, e diversas outras quando eu já não estava mais lá.

- Apesar da minha idade, essa é minha única história, o conto que eu deixo para o mundo. Ela é a única história de um pobre velho, que a muito viveu solitário sua parca vida, mas acabou por aprender a maior das lições. Pois a vida mostra as coisas de uma maneira incrível.

Talvez por ele repetir tantas vezes essa frase, seja ela a que mais me vem a mente toda vez que eu lembro daquele velho, com sua única história, sua única herança para o mundo. Ele não tinha parentes, amigos, conhecidos, apenas aqueles que sentavam na praça para ouvir suas histórias, mas se dizia a pessoa mais feliz do mundo. No começo, duvidei de sua sabedoria, já que ele era um velho que se resumia a apenas uma história. Mas não, parecia que ele fazia isso como um teste, uma prova para apenas aqueles que realmente merecia o seu presente passar, e só eles puderem receber-lo. E assim, depois de bastante introdução, e o afastamento de muitas pessoas a sua volta, ele mascava o nada que tinha em sua boca, sorria e começava a contar aquela que era a sua razão de viver. E ele começou, começou a contar aquela história que mudaria de vez a minha vida. Sentado no chão, no meio da praça daquele pequeno vilarejo, possuidor de poucos predicados, estava eu, enquanto o velho começava a soltar palavras de sua boca, de maneira extremamente harmoniosa, colocando cada palavra no mundo de maneira cuidadosa e carinhosa.

Ele contou que nascera em um belo e luxuoso berço de ouro, sendo ele filho de uma das mais ricas famílias da sua região. Filho de comerciantes bem sucedidos, membros da parte mais alta daquela sociedade, a criança nascera com o futuro já planejado e traçado, seguir os passos de seu pai, que havia seguido os passos do dele, e assim numa roda de negações dos desejos e vontades, onde o principal era a tradição. E naquele ambiente foi criado. E ali foi educado, aprendendo artes diversas, letras, ciências e outras matérias da vida. Mas nada daquilo o preenchia quando era garoto. Pensava que tal solidão se dava pelo fato de não ter muitos amigos ou pessoas da sua mesma idade em sua volta, assim como todos. Acreditava em um futuro onde ele estaria dentro de um mundo que fosse dele, pois aquele nunca havia pertencido a ele. E ali foi vivendo e suportando, o mundo dos seus pais, e dos pais dos seus pais, e assim suscetivamente.

Entre luxuria, inveja, desejo, cobiça e traição, ele foi crescendo, e viu o seu futuro tão desejado entrar em sua vida com a preça de quem não mais tem tempo para viver. E sem que percebesse, estava ele, envolto em roupas sofisticadas, comidas e bebidas de requintes desejáveis por todos os membros da sua sociedade, festas e diversões inacabáveis. Encontrou nas amizades seus semelhantes, e agora, acreditou que não mais se sentiria sozinho. E isso não ocorreu, pois estava lá, novamente, ele no escuro de sua alma, sem entender porque nenhuma daquelas coisas tão caras e sofisticadas conseguia preencher-lo.

E assim, ele continuo, pensativo, distante, na esperança que um amor enfim preenchesse o vazio que o consumia a cada dia e tirava sua razão de viver. Era triste, solitário, mas ainda guardava a esperança, assim como todos os de sua idade. Então, buscou, e com todas as facilidades que sua vida lhe trouxe, facilmente encontrou o amor. E nos braços de uma bela moça entregou sua vida, sua esperança e seu amor. E com ela, ele teve filhos, e começou a construir uma vida. Agora sim, ele acreditara ter encontrado enfim sua felicidade e paz. Mas por algum motivo, nada daquilo o preenchia, ainda faltava algo em sua vida, algo que ele não podia comprar, que ele não podia conquistar, que ele não tinha conhecimento nem com todos seus estudos, toda a sua vivência. E isso o consumia, profundamente.

O tempo foi passando e com ele a sua esperança foi se esvaindo. Junto com sua esperança, a alegria de viver, e junto com ela, sua razão. E com isso, sua vida foi desmoronando. Logo, ele acabou por quebrar a roda da tradição de sua família, que era passada sempre de pai pra filho, e foi a falência. E com a falência, perdeu sua amada mulher, e com ela sua família. Logo, o homem já se via sem nada, mas pouca diferença fazia para ele, já que ele sempre sentiu que nunca possuiu nenhuma daquelas coisas conquistadas em sua vida. Não, ele sempre foi sozinho, e continuou na mesma solidão, com ou sem suas coisas. E então, solitário, ele passou a caminhar, e nessa caminhada, ele começou a olhar o mundo, mas não era mais o mundo que ele conhecia, pois ele se encontrava agora fora de sua redoma, fora da proteção que todo o dinheiro de sua família o garantia. Agora ele era apenas um mendigo, envelhecendo dentro da dureza do mundo, e agüentando toda a violência que esse mundo poderia oferecer. Mas isso não o abatia, pois pra ele, a pior violência que enfrentou foi a solidão que passou por toda sua vida. Agora, ele não mais era membro da parte alta da sociedade, e sim mais um no meio de tantos perdidos na vida. E descobriu, nesses seus iguais, que ele podia encontrar o que sempre procurava, podia se completar com aquilo que era realmente importante. Agora, ele pode encontrar companhia para sua jornada, semelhantes em sua vida. Agora, ele tinha com quem se importar, com o que se preocupar de verdade, e algo que preenchesse sua alma. Ele descobrira o valor da compaixão pelo semelhante, e isso fazia dele o homem mais feliz que podia existir.

Naquele momento, o velho deixou de ser velho, deixou de ser mendigo, deixou de ser sujo, louco, e qualquer outro adjetivo não tão nobre, e passou a brilhar, passou a ser alguém especial. Pois seus valores me atingiram profundamente, e a partir deles, eu passei a enxergar o mundo de uma maneira mais leve, feliz, e verdadeira. Depois daquele dia, eu passei a amar de verdade, assim como o velho fazia depois de perder tudo. O velho descobrira na compaixão o amor por todas as coisas, e esse amor o preenchia, da mesma forma que me preencheu. E eu nunca mais vou esquecer as suas ultimas palavras:

- Eu tinha tudo o que precisava pra descobrir o que era realmente importante para a vida de uma pessoa, mas foi só perdendo tudo que consegui encontrar o amor a todas as coisas. A compaixão me preenche, e me faz a pessoa mais feliz do mundo. A vida mostra as coisas de uma maneira incrível.

E depois de suas ultimas palavras, o velho sorria, fechava os olhos, se levantava e em silencio ia embora da onde quer que ele estivesse. Dias depois ele sempre retornava para aquele mesmo lugar, e contava a mesma história, não sei se ela causava o mesmo efeito as outras pessoas que ali ficavam todo aquele tempo como ouvinte do velho contador, mas a mim simplesmente mudara minha visão de mundo. E por mais algum tempo, eu continuei ouvindo aquela história repetidas vezes, como um rito de purificação, até o dia em que nunca mais aquele velho apareceu para contar a sua única herança para esse mundo. Para o mundo, aquele velho e louco mendigo morrerá da idade que se abatia sobre seu corpo, mas para mim, ele estará sempre vivo, em meus pensamentos e em meu coração, pois ele transformou aquilo no que acreditava e o mundo em que eu vivia.

22 de novembro de 2008

É hoje o dia


É hoje o dia. Se não for, quando será. Será amanhã, depois de amanhã, será se já passou??? Se nunca mais será. Não sei, só sei que preciso desse dia. É hoje o dia. O dia será, um único dia, o dia mais importante de minha vida, onde tudo mudará, onde deixarei minha marca nesse insignificante papel dentro da humanidade perdida. Sim, eu preciso desse dia, e ele virá. Mas se não vier, eu hei de inventar um dia, só pra isso. Um dia 31 de fevereiro que seja, será declarado o meu dia, o dia nacional para mim, quiça mundial. Mas esse dia há de existir.

Ninguém acredita, mas eu tenho o poder, e provarei toda minha força, minha dedicação e minha capacidade, pois farei o que todos acreditam ser impossível, mudarei a realidade, inventarei o irreal. As cores serão alteradas, os sentidos também. Desafiarei todas as leis da física, e qualquer outra lei que por ventura se impor em meu caminho - e vencerei, uma a uma, até chegar em meu objetivo. Sim, esse dia há de existir, e ele existira.

Será um dia único, um evento na história do universo, algo que nunca mais se repetirá, pois ele iniciará e terminará em si mesmo, e depois que terminar, não há mais de se repetir, não mais existirá. Nunca mais. Eu inventarei um dia, criarei, brincarei de deus, serei dono de todas as coisas, de todas as vontades, te todas as regras, e todos os limites estarão na minha mão. Sem preocupação, sem sentimentos, sem nada. Apenas um dia, um dia para se viver toda uma vida, um dia para se experimentar todas as experiências, um dia para se sentir todos os sentimentos do mundo. Esse será o meu dia, o dia único, que nunca mais se repetirá, nunca mais.

E no final desse dia, estarei exaurido, terei sugado toda a energia que o mundo pode produzir, e assim, o mundo descansará, pois o dia terá corrido, completo, perfeito, e final. Sim, será o dia, e depois dele, nada mais terá importância, será apenas continuidade de uma história repetitiva e obvia, aquela vida que faz as pessoas se sentirem seguras e iludidas. Sim, eu farei isso tudo, e não duvidem de mim, sou rei do meu mundo, sou senhor do meu universo, e nele posso tudo. Provarei, por A mais B, com todas as letras, através da prática, da lógica, do raciocínio e de qualquer outro meio de compreensão existente, que sou capaz. E farei, pois é hoje o dia.

O Jovem Pintor


Estava ele, sozinho, como sempre fazia, naquele quarto vazio, sem nada além de suas idéias, dores e solidão. O jovem pintor percebia que algo de diferente acontecera com ele, naqueles últimos momentos que passara em sua vida. Algo mudou dentro dele, algo fez com que o mundo se torna-se diferente, estranho. Não entendia direito o que estava acontecendo. Seria o mundo que cresceu, ou então ele se encolheu dentro daquele quarto velho e alugado?

As paredes brancas e descascadas só davam saída para uma grande e antiga janela, mas essa não mais mostrava o mundo que no passado admirava o jovem com seus olhos profundos e intensos. Não, não havia mais essa beleza. Não havia mais as cores antigas, elas mudaram, se tornaram intensas, confusas e gritante. Ele via o mundo de maneira diferente, como se um dia, seus olhos simplesmente tivessem sido trocados por outros. Um novo mundo surgiu na sua frente, e com isso sua vida mudou, completamente. Ele vivia disso, se resumia a exprimir o mundo para os demais através de seus quadros. E agora, tudo havia se transformado. Não eram mais seus quadros, ele não mais se reconhecia em suas obras, não conseguia explicar porque tudo aquilo saia de suas mãos, de seu interior. Aquele não era o seu desejo, como fazia dos seus belos e harmoniosos quadros antigos. Não, agora, o que era produzido pelo jovem era caos, desespero, angustia e dor, muita dor. E ele se apavorava, mas não parava, não conseguia parar.

E ele não sabia o que fazer com isso, simplesmente se sentia fraco diante daquela realidade, e assim ele se entregava. Mas a cada quadro pintado, ele morria um pouco, pois aquelas novas pinturas, seus novos trabalhos consumiam o jovem pintor, fazia com que ele se esvaísse em cada pincelada dada, em cada tinta utilizada. Os mais sensíveis simplesmente se perdiam naquele novo e confuso mundo que o jovem criava a cada trabalho realizado, se angustiariam com tamanha dor e desespero. E ele não parava, não conseguia, tinha, como uma obrigação vital, que continuar produzindo e produzindo, cada dia mais definhando junto com suas obras. E ele via, em cada quadro, que o seu caminho o levava para um trágico final. E assim o fez. Pintou quadro a quadro, e foi com eles se esvaindo, desaparecendo, até que um dia, ele simplesmente deixou de ser, e nunca mais apareceu. O que sobrou do jovem pintor foi o testemunho da dor e do desespero de alguém que havia perdido as forças contra seu próprio destino e se entregara a ele como uma presa feria ao seu predador. E o que ficou, em seu velho e alugado apartamento, foram os registros dessa sua ultima caminhada, passo a passo, quadro a quadro, pois só isso restara naquele quarto, já que não mais existia um jovem pintor que ali morava.

21 de novembro de 2008

A dor da solidão


- Minha alma está como um deserto - dizia o homem para aquele pé morto de alguma arvore que a muito não nascia nada, nem folhas, nem fruto e nem esperança.
- Minha alma está como um deserto, seca e oca como seu tronco. Vejo em você o retrato do que eu sou, da mesma forma que fui o que já foi. No passado, as pessoas vinham a você atrás de sombra, dos seus frutos, lhe procuravam, e desfrutavam da sua pura e simples existência. Assim ocorria comigo. Mas, como aconteceu com você, o infortúnio da vida nos levou o que nos era rico, único e desejável. Me tornei essa pessoa, amarga, solitária, sem sonhos e nem esperança, e por brincadeira do destino, acabei parando nesse imenso deserto, onde os únicos habitante são dois seres ocos, vazios e sem vida. Oh arvore, porque continuas ai, parada diante do infortúnio que se tornou sua vida?

E obviamente, o homem, velho e cansado, com as marcas das dores que havia passado nessa vida amarga e vazia em sua face, não obteve nenhuma resposta. Percebia que não mais havia vida naquela arvore, que a muito tempo não passava de madeira velha sem esperança, sem chance nenhuma de recuperação. E via nela o seu destino, sua cina. Sentou-se, encostando seu corpo na velha arvore e tentou chorar, mas sua alma já estava seca, e não mais era possível tal expressão de sentimento. Não podia também sorrir, nem se acalmar, nem esperar nada. Apenas dor. Dor e desespero. E ali ficou, olhando para o seu interior, vazio e escuro, tentando, mais uma vez, compreender o porque daquilo tudo.

Tentava lembrar dos momentos felizes, mas esses foram anulados pela angustia do sofrimento que lhe foi causado por uma vida solitária, sem a companhia de um amor sequer que o acompanhasse em sua jornada. Poderia vestir todas as roupas do mundo, as mais belas e sofisticadas, mas sempre se sentiria nu. Nu e solitário, mesmo que cercado de pessoas, nenhuma simplesmente era capaz de perceber a sua presença, a sua existência. O homem tinha essa cina em seu destino, e não lhe cabia forças suficiente para fazer mais nada a não ser aceitar todas as dores do mundo. E aos poucos, a cada passo de sua caminhada, elas iam caindo, uma a uma, nos ombros daquele homem, que com isso ia se transformando, dia após dia, numa arvore oca e seca, sem alma e nem esperança de renascimento. E ali ele chegou, no deserto, em frente a arvore morta.

- Agora entendo, arvore. Nós trilhamos nossos caminhos, seguimos nossos destinos, sempre solitários. Por mais que existissem pessoas a sua volta, aproveitando de seus frutos e de sua sombra, elas nunca poderia te completar como suas iguais o faria. Assim, você que nasceu tão longe das florestas e bosques, nunca conseguiu realmente se sentir acompanhada, amada de verdade. E assim foi o meu caminho. E hoje, nossos caminhos se uniram, unindo os dois solitários em seu destinos de dor e desespero. Agora, pela primeira vez, eu não me sinto sozinho, muito menos você, pois encontramos alguém que se assemelha a nós mesmo em algum aspecto da vida, mesmo que no pior deles: na dor. E na dor nós nos unimos, para assim, chegarmos a nosso destino final, a nossa paz última, a extinção completa de nossa dor, o fim de tudo.

E ali, o velho homem sofrido sentou e fechou os olhos, que doíam de tanto tempo olhar o vazio e a escuridão. E esperou, esperou pelo fim. Ficou, aguardando o momento de paz, pois acreditava ter encontrado o significado de seu destino, de sua vida. Mas não, essa paz nunca chegou. E ele voltou a sofrer. Ele tentou lembrar de um tempo em que teve esperança, mas a única lembrança que veio foi a da dor de perder-la completamente, e ali ele perderia mais uma vez. Não, a paz não veio. Passaram-se dias, meses, anos, e a paz nunca veio, e nunca virá, pois aquele homem, velho e solitário, tinha nascido com a cina de viver e sofrer toda a dor da solidão, e passou toda a eternidade naquele deserto seco e vazio, ao lado de uma arvore também seca e vazia, assim como sua alma e o seu coração.

20 de novembro de 2008

O homem das estrelas


E naquela hora tardia a cidade dormia, as ruas estavam vazias, veladas em seu sono tranqüilo e despreocupado de um dia atarefado e conturbado, enquanto ele simplesmente começava sua vida naquele momento, como se mais nada teria acontecido a ele antes daquele momento, sem passado, mas era assim que ele mesmo queria que fosse. Estava ele, aparentemente sozinho, naquela noite escura e deserta, mas essa escuridão era apenas para os outros que o observava com os olhos limitados da razão. Para ele, aquele momento era o mais iluminado possível.

Naquela noite algo havia acontecido com o coração daquele homem, estranho para os demais cidadão daquela cidade confusa e conturbada. Ele nunca foi algo que a cidade pudesse considerar como um membro querido dentro da comunidade que seguia suas regras como o dogma responsável pela existência e manutenção do todo. Ele não, não ligava pra dogmas, não ligava pra regras, simplesmente as criava, e seguia seu próprio caminho. Não porque queria, e sim porque era assim, pois se em outro momento pudesse ter escolhido, teria trocado sua identidade com a de qualquer cidadão comum. Mas não naquela noite, não, naquela noite ele havia se descoberto. Era tido como párea diante os demais, sua voz nunca ecoava em nenhum canto daquela cidade, a sua vida era apenas um objeto pelo qual as pessoas passavam diretamente sem que se desse o mínimo valor. E cada dia que se passava em sua vida ele se convencia de que a verdade dos outros seria a verdade universal, absoluta, e ele apenas mais um regido por ela. Mas não naquela noite, pois naquela noite ele havia se descoberto. Se ele vivesse em nossa cidade dos dias atuais, seria taxado como um louco, um mendigo, um excluído que simplesmente estava agregado a realidade como um apêndice doente que não pode se retirado, um estorvo para o conjunto social. E de certa forma, era assim que ele era visto por todos. Ninguém lhe dava valor, ninguém se importava com seu destino, apenas queria que qualquer experiência que fosse passada na presença daquela figura acontecesse da maneira mais breve possível. E dessa forma ele vivia, e por isso mesmo não lhe era desejoso a lembrança do passado. Mas não naquela noite, naquela noite, ele havia se descoberto.

Não se sabe porque, assim como todos os demais cidadãos daquela cidade movimentada, ele também olhava apenas para duas direções - para frente e para o chão - pois só ali é que as coisas que realmente interessavam residiam. E assim, todos viviam, em suas pressas e obrigações. Mas ele não tinha a pressa e nem a obrigação de um cidadão comum. Não, ele vivia em outro ritmo, em outro lugar, e por isso era infeliz. Não se enquadrava com nada que existia, e se sentia a mais solitária das criaturas do universo, e de fato ele era. Mas não naquela noite. Naquela noite, ele se sentou, a beira de uma fonte de águas limpas que existia em uma das praças da cidade, se encostou em um canto confortável para aquelas costas cansadas de tanta solidão, e olhou, não mais para frente ou para o chão, onde procurava as coisas necessárias para uma vida corrida e atarefada. Nesta noite, ele olhou para cima, e viu o que ninguém naquela cidade havia visto antes. Ele olhou para o seu lugar, para a sua verdadeira casa, e percebeu o porque que não pertencia àquela realidade daqueles homens apressados. Seu lugar estava nas estrelas, nos céus, ao lado da lua e dos cometas, e seu coração sentia-se confortável em ver aquela imensa beleza, a intensidade das luzes da noite, as formas diversas que se criavam em sua mente e só ele era capaz de enxergar. Ele sabia agora que não pertencia aquele mundo de coisas apressadas e confusas, mas sim a um mundo mais suave, belo e cheio de luzes que era aquele que encontrou nas luzes das estrelas e da lua que o cobriam o mundo sem que ninguém naquela cidade percebesse. O que ele descobriu foi seu mundo interior, sua verdade e seu desejo, e assim começou a viver.

Enquanto a cidade dormia o seu sono profundo de um dia atarefado e corrido, o homem saia definitivamente daquela cidade, em busca da beleza que fez ele despertar para a sua própria vida. Não mais procurava o seu lugar, pois havia encontrado dentro de si mesmo, e passou a viver uma realidade que nem em sonho aqueles cidadãos atarefados e ocupados um dia teriam o mínimo vislumbre. Não, naquela noite, aquela cidade perdeu uma de suas maiores belezas, mas ela era dura e engessada demais para perceber essa perda, pois se o fizesse, choraria durante dias. E assim, aquele homem foi embora, fugiu daquele mundo que não era seu e encontrou a felicidade, pois naquela noite, sua vida havia realmente começado.

14 de novembro de 2008

Caminho na Areia


Andava, andava e andava, e naquelas areias fofas e macias seus pés pisavam, e deixavam marcas que logo seriam apagadas pelas ondas do mar que ali sismava em tentar acompanhar-la, mas cada marca de pé ficava guardada na alma de todos aqueles que acompanhavam a caminhada daquela figura. Seu andar era tão belo como a luz que emanava de sua essência, luz essa que faziam todos se sentirem admirados e instigados, desejosos de invadir e descobrir os segredos que haviam por traz daquela figura que simplesmente andava pela beira da praia. Mas, ninguém o conseguia, apenas aqueles que ela achavam ser merecedores de tal privilégio. E era isso que realmente era ter acesso ao interior daquela pessoa. Poucos sabiam ou viriam a saber, mas dentro daquela pessoa, existia uma luz, forte mas serena, que trazia iluminação e tranqüilidade para quem se banhasse de tal luz, se iluminasse e deixasse que ela guiasse seus caminhos.

E essa pessoa se transformava de acordo com o desejo e anseio daqueles que por ventura conseguisse entrar em seu mundo interior. Seria ela uma mulher, um homem, jovem, velho, ninguém na verdade sabia quem era essa pessoa que caminhava na beira da praia, marcando as almas daqueles que admiravam cada passo dado pelas areias brancas e macias. Sempre andando, sempre em frente, sem olhar para trás, seguindo em direção de algo, como se soubesse de seu destino desde o dia em que havia nascido. Não era uma pessoa comum, era como algo que nascera com o objetivo de trazes a vida das pessoas necessitadas luz e tranqüilidade, e isso ela fazia. Seria esse o destino de tal pessoa? Ninguém sabia, mas todos tinham certeza de que tal pessoa conhecia seu destino mesmo antes de nascer. Mais um dos vários segredos que tal pessoa possuía, segredos esses que serviam para aumentar o desejo e instigar todos aqueles que a admiravam. Mas ela limitava o presente de sua presença verdadeira aos poucos que por desejo do destino que ela seguia viria a ser merecedores de tal dádiva.

Seu caminhar era de uma beleza incrível, e tinha o pode de transformar as coisas. A dor se transformava em alegria, o desespero em esperança, a angustia em prazer, o medo em tranqüilidade, e assim, fazia com que a vida de todos que acompanhavam seus passos se tornasse mais calma, serena, leve e fácil de viver. Talvez esse fosse seu objetivo, seu destino nesse mundo, ninguém sabe, pois os segredos que essa pessoa possuía estariam guardados para sempre em seu interior mais profundo, esperando o dia em que alguém seja capaz de decifrar-los e invadir seu interior, para assim ela saber que não caminhava mais sozinha nesse mundo. Enquanto isso, ela espalhava luz, carinho, desejo, felicidade e esperança, guiando aqueles que se dedicavam a admirar e acompanhar cada passo de uma das mais belas caminhadas feitas pelos seres que pisaram nessas areias brancas e macias. Ninguém sabia quem era ou o que era aquela pessoa, mas bebiam dela como se fosse uma fonte de esperança e alegria.




Poucas são as pessoas iluminadas que cruzam nossos caminhos, e cabe a nós identificar-las e valorizar-las, para que nossas vidas se tornem mais leves e fáceis de viver. Obrigado a todas as pessoas iluminadas que passaram, passam ou virão a passar por minha vida.

8 de novembro de 2008

O homem que chegou ao mar


Apesar da praia ser de uma beleza única e estonteante, seu interesse estava mais adiante, naquela imensidão que ele encontrara e admirara por todos os motivos conhecidos e não conhecidos. Sim, era importante para ele as areias limpas, claras, finas e suaves, que o recebia bem e fazia o chão morno ser tão agradável como um leito cheio dos vícios e marcas do cansaço de dias de batalha no campo da vida. Mesmo assim, ele não estava totalmente interessado na beleza daquelas areias, da vegetação que cercava e escondia ela, dos animais que ali passavam e a tinham como morada, de toda a diversidade e bela única que trazia para ele as areias daquela praia. Não. O que lhe era interessante, o que lhe prendia atenção e despertava o desejo era a imensidão azul, cristalina e poderosa do mar que se colocava a frente dele.

E ali ele observava, olhava atentamente o horizonte, se perdendo em imaginações. Era levado pela beleza do mar numa viajem única para lugares que a muito ele tinha esquecido que existia. Olhava as ilhas, via as aves sobrevoando e sempre buscando algo dentro do mar, e o céu que parecia ser parte complementar da beleza e da sua imensidão. Observava encantado tudo, estava dominado por aquela beleza. Olhava com cuidado a força da vontade que esse mar possuía, com toda a sua movimentação, suas ondas, a sua maré e todas as coisas que ele trazia de tempos em tempos para a areia da praia. Brincava as vezes com essa vontade, mas com a cautela de quem invade o jardim mais belo do imperador mais impiedoso do mundo.

Sentia a brisa que o vento trazia, como se o mar quisesse estar em contato com aquele homem, e ele se banhava com o vento, a umidade e o frescor daquele ar puro e leve. O sol que ali batia não era o mesmo sol que se encontrava em outros lugares. Naquela praia o mar se fazia senhor de todas as coisas, controlava tudo que estava em volta do homem, como se sua vontade fosse a de dar ao visitante as melhores sensações, os conhecimentos mais esquecidos e a beleza mais desejava. O mar interagia com o homem, vivia e fazia sonhar, completava e preenchia o vazio causado por tantos anos de viajem que o homem realizou até encontrar-lo. De uma certa forma, o mar recompensava o homem por tudo que ele passou para chegar até ali.

E ele observava, se perdia em pensamentos quando imaginava a imensidão que deveria ser o mundo interior daquele mar, os perigos e recompensas que deveria existir debaixo daquela imensa camada azul de beleza e soberania. Pensava em toda a vida que ali habitava, que preenchia não só o interior do mar, mas o coração daqueles que por ventura enfrentaria os perigos e barreiras que a vontade do mar impunha e adentravam a imensidão de seu interior. Pensava e desejava o dia em que entraria de cabeça e se perderia de vez naquele mar, para ali passar a ser mais uma vida que preencherá o vasto e belo interior do mar, e ali viverá para sempre como um ser que encontrou o destino que tanto procurava. Esperava, pacientemente, o momento em que ele faria essa aventura, essa ultima jornada, esse ultimo esforço. Não era aquele o momento, pois se o fizesse, saberia que morreria, e que não cumpriria seu destino. Assim, ele observava e esperava o dia em que ele seria o mais valente, se tornaria o mais forte para assim se tornar o mais completo dos homens.

E assim, o homem encontrou o mar, e o mar encontrou o homem, e os dois se completaram, para serem cúmplices de uma vida que por conseqüência de seus destinos, nunca mais teria fim. E para sempre, seriam o homem e o mar, pois aquele mar era o seu mar, e mais ninguém no mundo seria capaz de encontra-lo, nunca mais. Nem o homem, e nem o mar.



Que todo homem nesse mundo seja capaz de encontrar seu mar, e dentro dele se tornar inteiro e completo, para assim poder viver para todo o sempre.

6 de novembro de 2008

A parede de tijolos



Por que ele ainda lutava contra aquela imensa parede?

Estava lá, ele em pé, olhando fixamente os tijolos sujos e desgastados da imensa e interminável parede. Seu caminho acabava ali, e só poderia continuar ao atravessar-la. Mas a parede, essa não tinha fim. Ela era imensa, imponente, poderosa, sua sombra cobria completamente o coração dele, tornando os desejos e vontades algo que iam da tolice à estupidez, sem valor, sem importância. A imponência da parede o tornara um nada, pois não havia sentido em ficar parado, sem saber o que fazer. Nessa estrada, era impossível voltar, o único caminho que lhe era permitido era aquele que ele podia enxergar a sua frente. Esse não mais existia, só os tijolos que compunha aquela imensa e interminável parede.

Seria esse o fim do caminho? Teria alcançado o limite de seu destino?
Não obtinha respostas para essas indagações, a única coisa que possuía era a tristeza de não mais caminhar. Impotente, incapaz, e assim, infeliz. O homem, coitado, era apenas um homem, apenas algo, praticamente nada, enquanto a parede era senhora, poderosa, única e dona do destino do viajante. Ele, se resumia, se diminuía e terminava ali. Sem ter para onde ir, apenas contemplando a sua finitude diante da imensa e interminável parede.

Em alguns momentos, uma brisa soprava palavras de alento em seus ouvidos, criando a falsa esperança da superação daquele poder que se mostrava na sua frente em forma de parede. A brisa vinha, e ele se transformava, criava coragem, acreditava em um outro destino, buscava a esperança a muito perdida, e assim, lutava contra a parede. Mas a brisa não fazia absolutamente nada quanto a parede, apensa passara em seus ouvidos e falava palavras que o acordava de um sono profundo, sono esse que ele, depois de algumas tentativas de superar a parede, não se sentia no direito de despertar. Com o tempo, voltava a sua anulação, sua existência menor, sua insignificância. Com o tempo, voltava a sua normalidade, e seu estado de ser apenas algo diante de uma imensa e poderosa parede de tijolos, impossível de ser transponível.

Muitas brisas passaram no ouvido desse homem, mas com o tempo, ele passará a não mais acreditar no que elas dizem, tornado-se um incrédulo quanto a esperança e a sorte. Passará a acreditar apenas no que vê, no que sente, se tornando um incrédulo da sorte. Porque em sua realidade, em seu caminho, em seu destino, existe uma enorme e imponente parede de tijolos, impossível de se transpassar.

27 de outubro de 2008

Um pensamento em voz alta...

Novamente o brilho voltou para aquele olhar. Novamente o ar se tornou ameno e a brisa agora era amiga do rosto cansado que a muito sofria com o mundo seco e deserto. Novamente ele sabia para onde andar, e porque deveria fazer-lo. Ele agora tinha seu cristal na mão, aquele que brilhava intensamente e o fazia seguir adiante.As forças nas pernas e o desejo no coração haviam voltado, pois o tempo se abriu, e ele pode enxergar além daquelas nuvens negras que a muito cobria sua existência. Agora, ele podia ser novamente ele mesmo. Graças aquela ventania que chegou e afastou a nuvem de poeira recheada de dúvidas e dor e solidão. Agora, voltara a ser o homem que caminhava em direção a luz. Agora, ele era novamente o andarilho iluminado que seguia no seu puro e belo destino, na sua trilha e em busca de si mesmo. Graça a ventania que chegou com sua essência e afastou tudo aquilo que o tornará prisioneiro, que impedia de ele existir. A ventania salvou o homem de si mesmo.





Obrigado por ser minha ventania, minha libertadora e devolver a pedra que a muito tinha caído de minha mão.

26 de outubro de 2008

O homem da casa de madeira


Um dia, estava ele a espera do destino que já não mais tinha a clareza de tempos passados, sentado, em sua casa de madeira, isolada da vida normal que todos os cidadãos daquela pequena cidade gostavam de levar. Ele ficava lá, distante em sua casa de madeira, com sua cadeira de madeira, sua mesa de madeira e sua janela virada para um horizonte perdido e vazio. Até que um dia, ao acordar de sua cama de madeira, havia uma carta, branca e estimulante, como um tempero que a muito não era sentido por aquela boca. E então, ele correu até ela e abriu, e nela estava escrito palavras simples, diretas, como se fosse realmente o destino se manifestando novamente em sua vida: Você receberá flores em breve.

Logo o homem ficou entusiasmado. Estava alegre, queria compartilhar esse momento com alguém, mas não o tinha. Então, não se conteve, pegou sua cadeira de madeira e foi para a sua varanda de madeira, na entrada da sua casa. Lá, colocou-a virada para a estrada e se sentou, observando cada movimentação que ocorria em seu campo de visão, cada mudança de temperatura. O vento se tornara seu companheiro, as horas eram perdidas constantemente enquanto ele sonhava com o momento em que chegariam as tão desejadas flores. Ficava ali pensando, planejando, imaginando a felicidade que voltaria a surgir em sua vida e que ele já havia esquecido que possuía o direito de ter-la. E lá ficou, durante um dia, dois, três, uma semana.

O tempo foi passando, e a sua vida também, assim como a força da esperança que o alimentou nesses últimos dias. Agora mais do que nunca, o homem estava sozinho, pois a esperança que lhe dava conforto, que alimentava seus sonhos, que fazia acreditar num destino melhor, simplesmente voltara para aquela cidade distante onde ele a muito não podia botar seus pés em suas ruas lameadas e confusas pela movimentação de todas aquelas pessoas. E assim, o homem passou a desejar nunca ter encontrado aquela carta, jogava maldições naquele anonimo que pregara a pior peça que alguém poderia fazer contra sua pessoa. Odiava demais a si mesmo e a sua decisão, a de confiar novamente na vida. Queria voltar para dentro da sua casa, mas percebia que estava preso aquela cadeira, e que de tanto tempo parado esperando, já não tinha mais forças nas pernas para se levantar. Prisioneiro de sua situação, ele baixou a cabeça e chorou, e odiou, e se cansou.

Mas uma brisa, uma leve brisa bateu em seu rosto, trazendo um perfume que ele antes não havia encontrado e nem percebido. Era doce e delicado, que trazia leveza para sua alma, fazia com que o corpo se esquentasse, os sentidos voltassem a serem ativos, presentes, e assim ele se levantou. E se virou. E se surpreendeu. Atrás dele, sua casa, que antes era uma simples casa de madeira, estava coberta por ramos, raízes, galhos, folhas, e diversas flores espalhada por todos os lugares. Não havia percebido, pois estava o tempo todo fixado na idéia das flores que lhe chegariam da cidade, mas aquela beleza estava perto dele esse tempo todo, nascendo aos poucos, lutando para existir ao lado dele. Vencendo por ele, e vivendo com ele, mesmo que ele não a tivesse percebido. Agora não mais estava sozinho aquele homem da casa de madeira. Estava cercado de vida, de felicidade, de luz, de perfume e de um amor que nem ele sabia explicar. Agora, ele pode sorrir sinceramente diante do seu próprio destino.

5 de outubro de 2008

O homem e a brisa


Aqueles dias estavam nublados, mas sem a umidade refrescante da chuva. As nuvens que pairavam no céu eram diferente de qualquer outra nuvem natural. Era densa como uma nuvem de poeira, agressiva como uma nuvem de areia e fechada como seu coração começava a ficar a cada momento que ele vivia sob o véu dessa nuvem. Não havia vento que a movesse, ela ficava fixa acima da cabeça dele, retirando o ar que ele respirava e a energia que lhe restava para continuar caminhando. Suava frio, seus membros respondiam com dificuldade, estava se paralisando por uma fadiga sobrenatural, algo que crescia de dentro do seu eu. Ali, naquele ponto, debaixo das nuvens negras e pesadas, carregadas de tristeza, desespero, angústia e desolação, ele se curvava diante de si mesmo e de tudo que desejava se tornar maior do que ele. E conseguia. Se via novamente pequeno, encolhido, insignificante. A esperança que antigamente coloria sua vida, passara a se tornar cinza, perdia sua força e sentido. Ele sentia o fim se aproximando, e os desejos que existiam dentro dele combatiam a todo momento sua supremacia, fazendo com que ele desejasse com a mesma força a salvação e a destruição. Não tinha para onde ir, nem para onde se esconder, o campo era aberto e para onde ele olhava, via aquela nuvem preenchendo os espaços que o envolviam. Então ele olhou pra cima e esperou, como um último esforço.

Dias passaram, e a situação permanecia a mesma. E aos poucos, sem saber como ou porque, ele pode sentir em sua face a umidade de ares estrangeiros aquele ambiente. Um fio de força entrava em suas veias, cores simples surgiam em sua esperança, e a vida parecia voltar a seguir algum rumo. Ele entendia, aos poucos que aquilo que acontecera foi uma brisa que, por algum motivo que ele nunca saberá, simplesmente cruzou o caminho daquele homem. Era uma brisa fraca, leve, porém, foi a única companhia depois de dias em eterna solidão e desalento. Novamente olhava para o céu, e via que, por mais que levemente, alguma coisa se mexia. Era quase nada, uma mudança insignificante para os olhos comuns, mas para o olhar de um homem cansado e abandonado pelo acaso, uma pequena mudança significava o maior evento de todos os tempos, a maior conquista. E ele decidia se entregar a esse sentimento. Tentava sentir a brisa, tentava respirar esse novo ar, tentava aceitar essa possível nova realidade. E ele se encontrava ali, naquela situação, onde nenhuma certeza era possível, e isso por si só já era a maior vitória no momento daquele homem. Ele não sabia se a situação iria melhorar ou piorar, não sabia onde estava seu destino, e não tinha mais a certeza da queda imediata. Tudo porque uma simples brisa passou pelo seu caminho, trazendo ares novos para ele, resgatando a esperança de um mundo que a um tempo estava escondido, e tentando recuperar um direito que lhe fora negado pela nuvem que o seguia como se fosse seu senhor absoluto.

E ali, o homem ficou, suando, cansado, fraco, mas com o olhar para cima, esperando aquilo que a brisa iria reservar para seu destino. Sabia que ela podia ser a coisa que ele sempre esperou, e olhava para as nuvens, que lentamente se movimentavam, porém lento demais para salvar o homem. Ele sabia que aquela brisa não era suficiente para tira-lo daquela prisão. Mas as cores da esperança, por mais fracas que elas estivessem, coloriram uma imagem de uma possibilidade maravilhosa para a mente do pobre homem. E ali ele ficou, esperando que um dia a brisa ganhasse a força necessária para varrer a nuvem que a tanto lhe acompanhavam naquela trilha solitária e irregular. Ele esperava que a brisa se tornasse o vento de sua liberdade, o responsável pela seu renascimento.

1 de outubro de 2008

Deserto Gelado


Delírios de um viajante febril, ferido pela sua própria espada, vagando em busca de algo que simplesmente não existe. Sozinho caminho, não busco mais nada, apenas caminho. Caminho para lugar nenhum, pois deixei para trás a bússola que me guiava, a luz que me iluminava e a vontade que empurrava cada passo a um destino qualquer. Agora apenas caminho. Por esse deserto gelado sigo olhando para o chão. Não mais quero as flores que colorem e perfumam a paisagem, elas não mais estão ali. Não sei se estão, simplesmente não as olho. Não quero mais o vendo que me levantava a alma e trazia consigo uma esperança sem compromisso. Simplesmente evito o vento. Evito a chuva. Evito o sol. Caminho, olhando para o chão, perdido nesse deserto de gelo.

Como um viajante sombrio agora percebo o quanto era perigoso os caminhos percorridos no passado, como eram grandes os obstáculos ultrapassados e como era limitada a força que possuía. Vejo que existe uma força maior, aquela dos sentimentos mais profundos que só não se tornavam maior do que todo o mundo por seu puro e simples capricho, pois ali, na profundeza do meu ser ela dominava tudo o que existe em mim, apenas esperando o momento em que sua vontade a torne rainha daquela pessoa novamente, e ele volte a ser uma simples marionete do desejo. E é isso que sou, uma marionete perdida em um mundo onde apensas existe um viajante, uma estrada sem destino e o gelo do deserto. Sombrio, solitário, sozinho, esse sou eu, o viajante que nunca chegará, o explorador do vazio, aquele que simplesmente esqueceu o que é importante.

Alguns dias o desejo me manda para o norte, outros ele me leva para o sul, e assim simplesmente ando em círculos, nunca chegando em lugar algum. Como se não existisse o tempo, o momento fosse algo contínuo e interminável. Sem objetivo, sem vontade, apenas um desejo incontrolável de fazer algo que está além de seu poder de decisão. É um viajante confuso esse ser agora, um viajante sem destino, sem companhia, sem história, sem bagagem. A beleza do mundo era o seu combustível, a força que o movia adiante, e ela simplesmente se esgotou. Se foi e não deixou vestígios, para onde foi para. Agora ele caminha sozinho, numa estrada onde ninguém deseja atravessar, onde poucos conhecem sua localização, e onde dificilmente alguém aparecerá para resgata-lo daquele terrível deserto gelado.