Por que escrever?Por que escrever? Não se sabe, mas se deve, é uma obrigação que não é obrigada, um dever que se cumpre apenas por querer, por se ter e por se ser aquilo que se é. E por que escrever? Porque quando se escreve, se expões o que há em você, o que há em outrem e o que há em ninguém, tudo dentro de um mundo surdo que ganha voz quando o leitor absorve cada palavra e cada sentido rendado pela mente do escritor. E esse senhor ou senhora que outrora não sabe o que faz e como fazer simplesmente o faz, segue um rumo só seu, e não para jamais, para quando chegar ao final da jornada, o resultado dessa caminhada é um belo e lindo universo particular, um novo lugar, cheio de novos sentidos, que vem pelos olhos como se fossem ouvidos e bocas e dentes, e a pele que sente o calor de uma vida surgindo assim, como se houvesse magia, pois essa é a vida de quem cria vida.
Escrever torto com tanta necessidade de ser algo que não se é, inventar o que não quer existir, fazer força para tornar a ilusão que luta para não ser real. Essa é a batalha do escritor, aquele que desbrava universos perdidos dentro de mentes e sonhos e desejos sem fim e nem fundamento. Fala de amor, ódio e tormento; angustia, medo e alegria; fantasia, magia e ilusão, tudo misturado em versos e trovas e notas de uma música guardada na mente de quem lê e entende o sentido que quer, seja do autor ou seja o que vier. Mas aquele que passa esse sentido que vem de dentro e invade a totalidade de um ser, esse é bem sucedido no que faz, é capaz de dançar com o tempo, com a lógica e com a verdade mais absoluta que um tolo qualquer insistiu em dizer que era real. Ora bola, o coitado não viu que o real já existiu e deixou de ser no momento que a ilusão se tornou o querer da mente de quem lê, e rele e consegue esse mundo entender. Com calma ou com pressa, com medo ou avessa, coragem ou ousadia de ter vida vadia de quem vive num mundo que não existe, pelo menos pro tolo que persiste na crença do absoluto, real e único, conjunto que não se divide e se limita a regras escritas, por sonhadores marcados e traçados pelo lógico, o real e o reto. Não, eu vivo das curvas, das linhas que não dão em lugar nenhum, dos destinos sem ponto final, dos caminhos sem rumo, eu vivo da incerteza de se ter um final certo. Meu final, eu mesmo construo, e ao mesmo tempo me é construido, e assim, formo um texto, um mundo e uma vida. Assim, faço sentido o que o tolo duvida.
E me da nostalgia quando eu penso em seguir a viagem, vontade que passa ao iniciar cada passo dado, nesse meu estado de espírito chamado escrever. Ler é ter, é ser e crer que aquilo que está num simples papel em letras e mais letras é simplesmente possível, mesmo que a burra realidade diga que não. Assim, se não pode, problema não é meu, nem seu nem de ninguém, é só daqueles que não sabem ou não conseguem viver nesse mundo sem limites ou fronteiras, onde homens e bandeiras se misturam em cores e flores e amores, pois tudo pode ser, é só querer e seguir, pois se está escrito, a verdade é dita, nas linhas firmes e aflitas de um intenso e desejoso, quem sabe até um esperançoso escritor.
E você que me lê, talvez não entenda nada do que eu escrevo. Tudo bem. De certo nem eu sei dizer porque o faço, simplesmente sigo o que manda meu coração, e dessa forma eu sigo, fazendo essas trilhas chamadas de linhas que formam todo esse meu caminho. E assim, eu formo e faço me texto, sem sentido ou contexto mas quem sabe ele tenha a pretensão de atingir um coração e elevar a alma de quem sonha e chora a dor de uma vida escondida nas sombras, mas que de dia se liberta e faz uma festa pela vida que segue sempre em frente como essas linhas. Sem sentido, talvez. Mas sei que um dia tais linhas serão todo o sentido de alguém ou quem sabe, até o meu próprio sentido de fazer mais uma vez o porque de se escrever.
Tanto escrevo e ainda assim me perco, em linhas e linhas de textos e pretextos para expor minha agunia, alegria, fantasia e toda rebeldia, seja por simpatia ou por falso amor. Sinto dor, e ela vira palavra, letrada ou mandada, sempre seguindo o caminho do nada, o caminho que é só meu, e eu nem sei o que faço, apenas paro e continuo, seguindo os traços de um pensamento perdido, mas no texto achado. Engraçado como se desenvolve, e me envolve, me toma e me domina. Escrever, talvez minha cina, talvez um lazer com o prazer de fazer algo em mim tornar-se real, num mundo tão duro, cruel e muito mal. Sim, é o mundo de fora que eu não quero estar, quero viver de minhas letrar e fazer ali o meu lar, o meu lugar. Entenda o que eu digo, e te dou um abrigo nesse mundo inventado, confuso e complicado achado na minha imaginação, criação de alguém se segue por instinto o sentido de um texto, que pode ser todo, ou nada. Depende dos olhos, da vontade, da imaginação de quem lê. Se escrevo, é só pra você, leitor, e nada mais, pois atrás dessas linhas, está um desesperado, exaltado e maltratado, delirante num mundo sem lógica, irreal e duro, como é a verdade seqüencial, tão banal que em minutos me perde a graça. Por isso eu invento, reescrevo e penso, que todo o lamento e dor pode ser poesia, alegria ou fantasia, depende do olho, da vontade e do coração que bate em meu peito. Não sei direito, mas sigo assim, escrevendo sem fim, até que o dia, o texto termine.
Se você ainda não entendeu o porque escrever, nunca entenderá, pois porque não existe, e não existe porque, e não existirá, e por isso ou aquilo, por esse motivo, é que existe esse mundo, todo esse mundo, onde se escreve e se inventa mundos e tudo é assim, como se quer e se deseja, a sua vontade, ou a vontade de quem molda a verdade, essa única verdade que só existe dentro do mundo que foi escrito, descrito e assim tornou essa verdade escrevível.
Pra quem se escreve?Pra quem se escreve? Seja uma carta de alarde ou um poema de amor, escreve-se sobre dor, paixão, sofrimento e ilusão, sente-se o que se quer, e o que se deve sentir. Mas por que insistir em linhas que não se sabe que destino tomarão? Não, não se escreve em vão. Se escreve para si, e o si é o outro, juntos em sentimentos, embolados na loucura das linhas escritas, distintas para cada olho dado em cima. Assim, a cina do escritor é buscar o leitor, para quem merece, para que percebe e para quem é dado o convite da viajem para esse mundo particular. Mas o mundo, ao ser descrito, perde propriedade do autor, e ganha a popular, aquela de quem quiser chegar, e quem fazer com que o escrito seja o que se quer.
Sim, há um objetivo em se escrever, e vai além do desejo do escritor de expor o seu interior. Não, se escreve para colocar ao mundo a chance de uma viajem, de uma nova realidade, sem dores ou com desespero, espelhos mil criados para que o homem se veja e tenha o sentimento que tiver. Se escreve para alguem, e para que esse alguem faça um porém em tudo o que vem do texto feito, seja com cuidado, seja as pressas, seja mal tratado ou seja com carinho. De pouquinho em pouquinho, vai se lendo e dando cores e vidas ao mundo que não é mais do escritor, e sim do leitor. Esse leitor é o dono da escrita, é o objeto do desejo do autor, é o senhor do mundo a ser criado. O mundo é pessoal, cada um tem o seu, e aquele que se aventura pelas linhas de um texto, simplesmente cria novos mundos, mundos mil, onde a febril vontade de descobrir é saciada pela vontade de ter cada palavra dentro de um novo peito. Assim sendo, escrever é uma transfusão de mundos, é onde as palavras do autor invadem o coração de quem está lendo, fazendo com que uma nova e inédita realidade se crie. E pra esse exercício fantástico, não há limites.
Eu me limito, sou limitado, apenas escrevo, digo o que penso e faço o que meu coração manda, e ele manda sempre palavras que se ligam num sentido único, mas o objetivo sempre é o outro. Meu coração pede pelo outro, vive pelo outro, ele existe em função do outro, e a minha escrita é a extensão dessa vontade. Não há sentido na vida amarga de um texto perdido. Texto sozinho é texto morto, texto vazio e sem significado, não vale um trocado, por mais ricas que sejam suas palavras, dadas ou vendidas, compradas ou subtraidas, feitas de objeto para um objetivo sem propósito, sem causa e nenhum valor. O texto precisa do leitor, ele viver desse amor, e sem ele, não há sentido de existir. Pra quem se escreve, para aquele que ama, ou que quer amar, quem quer se aventurar e inventar seu próprio mundo. O leitor é o significado profundo da existencia dos textos. Sem eles, cada palavra vale menos do que o vazio da dor.